sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Pílulas de sarcasmo

É interessante como a tendência é louvar atitudes e valores que foram antes considerados impróprios, ao mesmo tempo em que se despreza aquilo que, na verdade, se deveria buscar. Foi assim que "boazinha" virou adjetivo pejorativo, que "humildade" se tornou defeito (ou eufemismo pra pobreza - gente, nada a ver). Ao mesmo tempo, a falta de sensibilidade, o egoísmo, o orgulho, a libertinagem passaram a ser virtudes.

Ontem li um texto que dizia:
Resumindo: sejam agradáveis, simpáticos, amáveis, compassivos, humildes. Isso vale para todos, sem exceção. Nada de retaliação. Nada de língua afiada para o sarcasmo. Em vez disso, abençoem, que é a obrigação de vocês. Assim, serão uma bênção e também receberão bênçãos. (I Pedro 3:8-9 - A Mensagem)

A princípio, o texto me deixou irritada. Quer dizer, não pode nem fazer uma piada? Será que essa tradução não está exagerada? Ser sarcástico é tão legal! É uma característica das pessoas inteligentes e geniais... Até que eu comecei a refletir o que significa realmente ser sarcástico. Toda vez que eu falo com sarcasmo, eu estou desprezando uma pessoa - seja o interlocutor ou o objeto. Os comentários sarcásticos, que de maneira imediata servem para demonstrar a sua inteligência e sagacidade, provocar risos na plateia que você deseja impressionar, não passam de um comentário amargo sobre algo ou alguém.

Procurei no dicionário e me assustei com a definição do Aulete:
(sar.cas.mo)
sm.
1. Zombaria amarga e insultuosa

O sarcasmo é um recurso valioso demais
para gastá-lo ofendendo a pessoas como você
Entre as palavras relacionadas, encontrei desrespeito, ridicularização, reprovação. Analisei a minha conduta e as minhas palavras, e me entristeci ao constatar que o dicionário dizia a verdade. Todo sarcasmo é um insulto. Quando eu falo com sarcasmo, eu sou mais uma na onda do politicamente incorreto - um nome cool pra fazer o que é errado. A internet é o palco perfeito para destilar veneno, e a gente sente o poder nas mãos, na boca, na língua quando a usamos contra outra pessoa, muitas vezes pelas costas.

Que possamos refletir sobre a nossa má conduta, antes que alguém morda a língua e morra com o próprio veneno.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

A Resposta (Kathryn Stockett)





You can't deny the truth 'cause I am the living proof

Aibeleen já criou dezessete crianças. As mães brancas carregam os filhos na barriga, e depois entregam para uma criada negra cuidar enquanto são bebês. As empregadas trocam fraldas, acalmam cólicas, ensinam a usar o troninho, ensinam a falar. As crianças não sabem a diferença entre um adulto branco e um adulto negro. Mas aí a criança cresce, vai pra escola e se torna um adulto branco que acha que gente negra é menos gente que gente branca.
Quero gritar alto pra Nenezinha me ouvir que sujo não é uma cor, que doença não é a parte negra da cidade.

Took a lot to learn how to smile
Você pode ser a pessoa mais habilidosa, ainda assim, tem que dançar conforme a música. Se você faz a melhor torta de caramelo e retruca com a patroa branca, não tem emprego pra você. É por isso que a Minny acaba trabalhando para a única mulher na cidade desesperada o suficiente para contratá-la. Excluída da sociedade por ter a antipatia da presidente da Liga Jackson, a patroa Celia Foote não tem família, nem vizinhos, nem amigos, só tem uma empregada que conhece muito bem o que é exclusão.
... e então eu vejo. Vejo o lixo branco que ela era dez anos atrás. Era forte. Não aceitava desaforo de ninguém.

It's gonna be a long long journey
Skeeter é uma adulta branca. Ela não sabe o que é ser negro no Mississippi, mas sente saudades da empregada negra que a criou, e desapareceu de forma repentina. Ela se incomoda com o fato de que os negros precisam usar um banheiro diferente, e com essa história de que não se conversa com empregadas. Mas ela não se encaixa. Alta, quando deveria ser mignon. Cabelos que não ficam lisos de jeito nenhum. E não acredita que as coisas estão boas do jeito que estão. É por isso que ela resolve escrever um livro com relatos das empregadas negras de Jackson, Mississippi. Não que isso vá mudar a história da humanidade - o caminho é longo, mas é um primeiro passo.
Os brancos escrevem sobre a opinião dos negros desde o início dos tempos.

E o que mais?

A Resposta é o livro que eu indico para qualquer pessoa. A história se passa no sul dos Estados Unidos, nos anos 60, e é interessante ver como os movimentos sociais nas grandes cidades que viraram história foram recebidos e afetaram a vida de gente comum. A Resposta (The Help) é o nome do livro que Skeeter escreve, com a ajuda de Aibeleen, Minny e muitas outras, contando como é ser uma empregada doméstica em Jackson: quanto recebem, como são tratadas, os banheiros, os bebês, e tudo mais. Enquanto conta histórias do cotidiano sob o ponto de vista das três personagens principais, Kathryn Stocket fala sobre todo o processo do livro, desde o surgimento da ideia, a dificuldade pra conseguir empregadas que concordassem em contar sua história num tempo perigoso, a publicação do livro e, talvez a melhor parte, a reação das senhoras brancas ao livro publicado.

Kathryn Stockett optou por escrever de forma bem coloquial. Você consegue ouvir as personagens narrando aquelas situações, falando do jeito delas. Dizem (não vi) que no original ela escreve com "sotaque" do sul. Deve ser um barato. Esse estilo ajuda muito na construção das personagens. É como se elas respirassem o mesmo ar que você. Eu não quero dizer muito mais, para que a história não tenha menos impacto para quem for ler pela primeira vez.

Esse livro eu comprei como presente de aniversário há dois anos, pagando uma parte com um vale que ganhei de um querido amigo. Na época, já haviam lançado o filme, então a maioria dos exemplares tinha a capa amarela. Quando vi esse exemplar na Cultura, sabia que não poderia perder a oportunidade, pois logo não se encontraria mais essa edição nas livrarias.

Aliás, o filme que foi feito a partir deste livro, Histórias Cruzadas (2011) é um primor. Ele deixa de lado algumas cenas fortes do livro, mas que não interferem no impacto dessa trama. A trilha sonora também é ótima, com artistas dos anos 60 como Jimmy Carter e Bob Dylan. Os trechos de música citados acima são da canção inédita do filme The Living Proof (Mary J. Blige).

O livro foi lançado no Brasil pela Bertrand, do Grupo Record, e pode ser adquirido nas principais livrarias... mas com a capa do filme.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Em setembro tem...

Churrasco Coisa que eu gosto demais é abrir a casa pros amigos. E casa cheia aqui no sul significa churrasco. A melhor parte é que eu passo menos tempo na cozinha e mais tempo no violão. Dá pra ficar melhor?

Primavera Pra quem gosta de viver coloridamente, a primavera é o melhor período do ano. Quente, mas não tanto. Chuva, mas não muita. Flores, flores, flores. Cores, cores, cores. Céu azul, azul, azul. Não dá pra ficar triste na primavera. (Exceto se você tiver alergia ao pólen, meus pêsames)

Aniversários Setembro é o mês em que a maioria das pessoas que eu conheço na vida fazem aniversário. Não, pera... É o mês com a maior concentração de aniversários de pessoas que eu conheço, incluindo uma mãe e dois irmãos <3

Curitiba Curitiba será minha por uma semana inteira. Ou eu serei dela. Tanto faz, eu nem me importo. Só sei que estarei lá, com o coração batendo forte de alegria.

Computador Da última vez que visitei meus pais, no penúltimo dia meu computador de repente não quis mais ligar. Deixei na UTI aos cuidados do meu técnico/pai, e o bonitinho já está em plena forma, melhor do que sempre, só esperando a mamãe buscar.

Fall season De um ano pra cá eu virei uma dessas pessoas viciadas em séries. Nesse mês estreiam as novas temporadas de várias que eu acompanho: Grey's Anatomy, The Big Bang Theory, The Good Wife, Once Upon a Time, Modern Family, Scandal, Resurrection, Castle... (sim, eu vejo muitas séries)

Feira do livro A 10ª Feira Internacional do Livro acontece sempre em Foz do Iguaçu e sempre em setembro. Nesse ano homenageia Ariano Suassuna, com 12 horas diárias de programação, além de livros em oferta e o marido abrindo a carteira com gosto #oremos

Bodas de papel Sim! Já faz UM ANO que a gente casou no civil, e não contou pra ninguém, pra não confundir as pessoas e evitar perguntas do tipo "ué, mas vcs não vão casar em janeiro? como assim casar agora? por quê? blablabla". Como comemoramos os aniversários? Em todas as datas, é claro!

Independência Já raiou a liberdade, já raiou a liberdade no horizonte do Brasil... Para a maioria das criança, 7 de setembro significa desfile. Para a maioria dos adultos, significa um feriado. Para mim, será um dia dedicado à reflexão sobre a liberdade. E pra você?

Livros novos Aproveitamos que a Amazon passou a vender livros físicos e... não compramos nada, porque a loja só aceita cartão de crédito como forma de pagamento :/ Mas a vontade era tanta de quebrar o jejum de OITO MESES SEM COMPRAR LIVROS (e a listinha só crescendo...), que fizemos o mesmo pedido em outra livraria. Devem estar chegando :)

Política Em plena campanha eleitoral, não dá pra escapar do assunto esse mês. Presidenciáveis, horário eleitoral gratuito, candidatos com nomes esdrúxulos, debates... a gente vê por aí (plim!). Mas você se lembra em quem votou nas últimas eleições? (Eu tenho uma coleção de decepções: Marina, Beto Richa, Ratinho...)

quarta-feira, 30 de julho de 2014

O Fantasma de Canterville (Oscar Wilde)



It's close to midnight
Something evil's lurkin' in the dark

Por séculos, a Reserva de Caça Canterville carregou a reputação de mal-assombrada. Não por acaso, pois contava com um fantasma competente para operar suas fantasmices. Manchas de sangue no chão, o arrastar de correntes à meia-noite e a habilidade de incorporar diferentes personagens assustadores são habilidades que constam no currículo desse renomado fantasma.
Há três séculos ele é bem conhecido, na verdade desde 1584, e sempre aparece às vésperas da morte de algum membro da nossa família, disse Lorde Canterville.

They're out to get you
There's demons closing in on every side

Pouco convencida pelos avisos dos vizinhos, a família de um diplomata americano mudou-se para a residência onde certamente não receberiam visitas. Foi assim que o Sr. e a Sra Otis com seus filhos Washington, Virginia e os gêmeos se intrometeram nos assuntos assombrosos do magnífico fantasma. Não existe nada mais irritante para um fantasma do que alguém que não o leve a sério. No entanto, jamais passou pela cabeça oca do fantasma que um dia seria tratado com tamanho desrespeito, especialmente pelos gêmeos, que passaram a assombrá-lo dia e noite.
Depois disso, ficou extremamente doente por alguns dias, mal saindo do quarto, a não ser para retocar a mancha de sangue.

'Cause I can thrill you more
Than any ghoul would ever dare try

Embora o título remeta a uma história aterrorizante, o que vemos é uma comédia que rapidamente se converte em um desfecho emocionante, como um roteiro da Sessão da Tarde, mas de uma delicadeza profunda. Sofrendo mais do que em toda a sua morte, o fantasma de Canterville se vê desesperado, e é nesse momento que encontra a solução para o descanso eterno, na família que o atormentava. Um conto que, em poucas páginas, faz rir e faz chorar.
Você pode me ajudar. Pode me abrir os portais da morte, porque traz o amor sempre com você, e o amor é mais forte do que a morte.

E o que mais?
Através da história do fantasma, Oscar Wilde dá conta de criticar a aristocracia inglesa e a cultura americana ao mesmo tempo. A primeira, marcada pelos títulos hereditários e pela cultura do luxo. A segunda, mergulhada no consumo e no pragmatismo. Wilde narra, antes de tudo, o conflito cultural entre Inglaterra e Estados Unidos, através de personagens estereotipados e caricatos que dão o tom de comicidade e ironia que marcam a obra. 

A edição que eu foi publicada pelo selo Barba Negra da editora Leya, na coleção Eternamente Clássicos. Tem ilustrações de Wesley Rodrigues e tradução de Elisa Nazarian. O miolo foi impresso em papel lux cream, muito confortável para a leitura. A arte de capa e os desenhos remetem a um estilo sombrio, mas imprimem a exata comicidade ou dramaticidade da cena retratada.

Comprei esse livro em Novembro de 2012, para completar a coleção "Eternamente Clássicos", composta também dos títulos O Corcunda de Notredame, O Mágico de Oz e A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça. O Mágico de Oz foi difícil de conseguir, e eu já vi edições mais novas que utilizam material de qualidade inferior.A coleção contaria também com outros títulos como O Corvo e O Jardim Secreto, mas parece que foi abortada. Nem o selo Barba Negra existe mais.

O conto foi a primeira história publicada de Wilde, primeiro em uma revista, depois no livro Lord Arthur Saville's Crimes and other stories. A história foi adaptada 5 vezes em filme para telinha e telona, e uma animação está em fase de pré-produção. A obra também se converteu em música, ópera e musical, foi publicada como graphic novel, dramatizada no rádio e inspirou um filme em Bollywood.


Os trechos em negrito são da música Thriller, de Michael Jackson. Coloquei a música no repeat enquanto escrevia, e agora não consigo tirar o Mark Foffalo da cabeça, muito embora ele não tenha relamente nada a ver com o livro. Alguém mais não consegue ouvir Thriller sem pensar em De Repente 30? o/

A edição que eu tenho está esgotada, mas a obra é de domínio público. Você pode comprar em qualquer livraria, ou fazer o download no seu computador do original ou da versão para o espanhol.

sábado, 26 de julho de 2014

Dos avós que eu tive

Eu nunca tive quatro avós.

Quando eu nasci eram três. E as histórias de uma avó Adelina, que foi homenageada com o meu nascimento - Annie Adelinne. Quando penso em vó Adelina, penso em uma mulher que sofreu muito. Não sei se é justa a imagem que eu tenho dela, mas é que não a conheci. Mineira, muquirana, muito honesta, batalhadora, mãe de 11 filhos, muitas vezes sozinha, algumas vezes solitária. Vi três ou quatro fotos da minha avó Adelina, que morreu de uma doença que, hoje, é a coisa mais besta do mundo: pedra na vesícula. A história da conversão dela é uma das mais lindas que eu conheço.

Quando meu irmão nasceu, três anos depois, já eram apenas dois. A imagem do vô Joviniano e do seu bigode, no entanto, só recordo das fotos que vi. Mas as histórias são tantas, que ele parece viver ainda através delas. Poderia ser um personagem de Ariano Suassuna ou de Jorge Amado. É o sanfoneiro profissional a quem toda a família se refere quando diz, orgulhosa "eu tenho a música no sangue". Festeiro, despreocupado, irreverente, mulherengo, muitas vezes ausente, mas nunca esquecido. Até na hora da morte estava distribuindo o que tinha, o chapéu a um, o relógio a outro...

Quando eu casei, era uma só. Meu avô Almerônio foi o avô que eu tive na vida. Ainda consigo ouvi-lo dizer "Menino malino! Fica bulinando no que não deve!" Lembro da sala onde ele fazia serigrafia, onde a presença de netos era proibida, o que só tornava as coisas mais interessantes. Eu, a única neta que foi morar longe, sempre fui alvo de mimos. Não podia pensar alto que tinha vontade de alguma coisa, que ela aparecia. Era quase mágica. Lembro de quando ele dirigiu da Bahia até Foz do Iguaçu, com o carro cheio de guloseimas baianas - um saco cheio de jambo só pra mim. Lembro de como ele acordava cedo e ligava o rádio do carro, tocando Roberto Carlos. Seu jeitinho discreto de dizer pro mundo que não é hora de dormir.

[O próximo parágrafo é triste, não pude deixar de escrever, faz parte da minha história com os meus avós, mas se quiser, pule para o próximo]

Lembro de quando minha mãe recebeu a notícia do câncer. Lembro do estado triste em que ele estava em sua última semana de vida, e agradeço a Deus por ter visto, por estar presente naquele momento, o último. Lembro do último olhar, quando me despedi dele pela manhã. Lembro de quando eu saí do banheiro do hotel em Salvador, pronta pra fazer um comentário indiscreto, e encarei três caras de assombro. Foi a primeira vez em que morreu alguém que eu conhecia. O choro do meu irmão, nos meus braços, dizendo que não queria ver morto o nosso avô. A viagem insone de volta ao interior da Bahia, acompanhando minha mãe. O choro cortante da minha avó. O cemitério, o momento exato em que ele foi descido à cova. Exatamente um mês depois, as lágrimas que eu segurava explodiram, enquanto o sol se punha no mar de São Luis do Maranhão. Ninguém disse nada. Não precisava. Há três anos e 11 dias meu avô morreu, e no dia 15 de julho de 2014 eu chorei de novo.

 

Hoje eu tenho uma avó. Vó Lourdes. A Dona Lourdes que todo mundo conhece. "Sou neta da Dona Lourdes" é um currículo completo em Camacan/BA. A única avó que eu conheci. Doce, sensível, disposta, batalhadora, talentosíssima. Todo mundo nessa família acha que prega um botão melhor que os outros, afinal, "minha avó é costureira de mão cheia". Ela fez o meu vestido de noiva à distância - eu só provei uma vez, com uma semana de antecedência. Mas isso porque ela tem experiência, com um armário cheio de vestidos de princesa das netas, quase uma linha do tempo em fita de cetim. Minha vó é uma fofa, e quem conhece concorda.

Eu nunca tive quatro avós, mas nunca me faltou. Eu não convivi tanto tempo com meus avós, como outros primos, mas nunca me faltou. Os avós que eu tive, pelo tempo que eu tive, e a avó que eu tenho ainda hoje, que deixa inbox no facebook com "BEIJOS DA VOVÓ", eles são mais do que eu mereço ♥

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Eu não me identifico com o feminismo

Não sei se é segredo pra alguém, mas eu estou em eterna conferência via email com alguns amigos mais chegados, conversando sobre todo tipo de coisa útil ou inútil e um dos temas polêmicos do grupo é o feminismo.

Falar sobre o tema é muito complicado, porque não existe um significado uníssono pra esse termo. De um lado, tem o feminismo" formado por putas feitas que não se depilam, odeiam os homens e querem dominar o mundo". De outro lado, tem o feminismo das mulheres oprimidas pelo machismo e pelo patriarcado e que exigem liberdade, mesmo que custe a liberdade alheia, afinal, todos os homens são estupradores em potencial. Enquanto isso, o famoso "feminismo é a luta pela igualdade" vai se tornando um mito...

Por trás da ideia de igualdade e de direito de escolha, existe sempre alguma dominação.


Pra começar, a ideia de igualdade é uma ideia falsa e opressora, porque as pessoas não são iguais. A única coisa que nos faz iguais é o fato de sermos todos humanos, e isso corresponde a um núcleo mínimo de direitos que todas as pessoas devem desfrutar, do qual ninguém pode abrir mão, independente de gênero, idade, cultura, religião ou o que for. Mas fora desse núcleo irredutível que corresponde à dignidade das pessoas, ninguém é igual. E essa é a graça. É por isso que convivemos em sociedade, que precisamos dos outros. Cada ser humano é único!

E é aí que vem uma coisa linda. Como cada ser humano é único, não existe "coisa de homem", "coisa de mulher", "coisa de asiático", "coisa de brasileiro". É claro que muitas dessas "coisas" serão encontradas mais facilmente em um grupo identificado de pessoas, mas por nenhum outro motivo senão o modo que foram criadas e como se relacionam na sociedade. Isso significa que cada um pode fazer o que quiser, mas também significa que os critérios para julgar devem ser iguais.

Eu vejo que muitas "bandeiras feministas" não têm o objetivo de tornar as coisas legais pra todo mundo, mas dar à mulher a liberdade de fazer aquilo de mais escroto , nojento e repugnante que os homens fazem por causa do machismo. A luta não é para que as atitudes machistas sejam eliminadas, mas que elas sejam liberadas pra todo mundo. Acontece que o que é feio pra um, é feio pro outro também. O que é degradante e fere a dignidade do homem (muito embora ele possa pensar que está abafando), também é degradante para s mulheres. O negócio é não nivelar por baixo.

Eu li recentemente um livro muito interessante chamado "O Machismo Invisível" (Marina Castañeda), que fala especialmente como o machismo afeta a vida dos homens. Claro, o machismo faz mal pra todo mundo. Oprime todas as pessoas. Faz com que os homens tenham que adotar uma atitude determinada para que sejam considerados "homens" pelos demais.

O que me deixou triste é que, quando a autora apresentava soluções para os problemas apontados, ela nunca considerou que as pessoas devem dialogar e combinar a forma como funciona melhor pra elas. Se o marido tem direito a ter sua conta particular e gastar como quiser, comprando um carro, por exemplo, sem falar com a esposa, então a esposa também deve ter sua conta particular e gastar como quiser, comprando um carro, por exemplo, sem falar com o marido. A ideia de que o esposo e a esposa devem conversar um com o outro sempre que quiserem usar o dinheiro da família pra comprar um carro, por exemplo.

É triste porque aquelas características consideradas "femininas", de consideração com o outro, de compaixão, de sensibilidade, são vistas como fraqueza, enquanto o egoísmo e a independência são supervalorizados. Isso nos enfraquece como sociedade.

Será que ninguém ainda pensou que certas coisas simplesmente não deveriam acontecer de forma alguma? Que se é nojento que um homem use as mulheres como objetos sexuais descartáveis, que seja violento, que não permita que elas expressem sua opinião, a recíproca também é verdadeira? Que anos de oprimido não justificam o desejo de opressão? Por que o modelo de mulher ideal é uma Lara Croft toda-poderosa que não precisa de ninguém e se vira sozinha? Por que, em vez de querer formar mulheres super-independentes, não autorizamos os homens a serem sensíveis, compassivos e dependentes?

Aqui entra a questão do direito de escolha. Porque se o modelo desejado é o da mulher que se despiu da fraqueza (aquelas características que a sociedade considera femininas) e se revestiu de super-poderes (aquelas características que a sociedade considera masculinas), as escolhas da mulher serão livres apenas se ela escolher se despir de sua fraqueza e se revestir de super-poderes. A mulher que escolhe ser mãe em tempo integral é oprimida. A mulher que é dona de casa é coitada. A mulher que dá de quatro está se sujeitando a um modelo de submissão.

As mulheres de hoje (e eu falo principalmente por mim) carregam nas costas o peso da obrigação de ser bem-sucedida. Aquela obrigação de esfregar na cara dos homens que podemos ser qualquer coisa, fazer qualquer coisa, ou mesmo que somos melhores que eles. O corpo é seu, a vida é sua, você é livre pra ser puta, mas não pra casar, pra deixar o mercado de trabalho, ou pra nunca entrar nele. Você não é livre pra amar e paparicar o seu marido (mesmo que em reciprocidade).

É por isso que eu não me identifico com o feminismo. Porque é muito arriscado se identificar com uma luta que não tem mais identidade. E não acredito no ideal de igualdade de gênero. Porque o que eu acredito é nesse núcleo irredutível de direitos para todos os humanos. E que para que todos desfrutem desse núcleo mínimo, precisamos nos despir do nosso egoísmo, da nossa independência, da nossa necessidade de fazer sucesso, e sermos todos mais servos, mais humildes, mais compassivos, mais "femininos".

sexta-feira, 11 de abril de 2014

[TAG] Isso ou Aquilo? - Livros


Eu lembro da época que isso se chamava caderninho de respostas. Aí veio a internet e o caderninho de respostas virou meme. Aí meme virou outra coisa e o meme virou tag. Enfim, essa tag eu vi no Suspiscious Minds, da Roberta Faria, e resolvi fazer porque achei legal.

1) Áudio-livro ou livro?
Tenho trauma de áudio-livro. Meu pai tinha vários e ele colocava pra ouvir no carro, mesmo os livros chatos que só ele queria ouvir. Teve uma vez que ele fez isso numa viagem. Ui, que horror. Além do mais, com os livros eu imagino as vozes que eu quiser :)

2) Capa dura ou mole?
Capa dura ♥ Tem gente que acha que atrapalha pra ler e tal, e se não for bem feita, o livro vai acabar estragando, mesmo. Mas eu gosto da capa firme, especialmente quando eu estou lendo e andando na rua e segurando outras coisas e o vento tentando virar as páginas (eu vivo perigosamente). Além de ser super lindo, né?

3) Ficção ou não-ficção?
Estou numa fase de não-ficção. Sério. Acho que é abstinência da faculdade ou um chá de adultice que eu tomei sem perceber. Aliás, eu notei isso ontem quando fui escolher a próxima leitura e fiz questão de pegar um livro de ficção.

4) Fantasia ou vida real?
Fantasia! Uma coisa que eu gosto da ficção é que você não precisa seguir os padrões chatos da vida. Não precisa ser preciso. Você pode usar a imaginação à vontade, criar mundos, criar poderes, criar seres... Existem tantos mundos interessantes na ficção! Oz, Nárnia, Terra Média, País das Maravilhas... Quem nunca teve vontade de viajar pra um lugar desses?

5) Harry Potter ou Crepúsculo?
Harry Potter eu não li. Crepúsculo eu li. Não dá pra decidir só porque eu li um e não o outro.

6) E-book ou livro físico?
Livro físico. Muito embora eu esteja querendo demais comprar um e-reader, não acho que um livro digital substitui um livro na minha estante.

7) Comprar ou pegar emprestado?
Cadê a opção ganhar? Sou muito mão de vaca. Vivo emprestando e pegando livro emprestado. Biblioteca sempre foi uma zona de conforto pra mim. E não me incomodo querendo que os livros permaneçam novos pra sempre. Na real, é um desperdício comprar um livro que só vai ser usado uma vez. (Existe um princípio da economia pelo qual as coisas são mais baratas quanto mais elas são usadas. Um sapato de cinquenta reais usado duas vezes sai mais caro que um de cem reais usado cem vezes). Acho que o livro fica triste. E se sujar, se riscar, se fizer uma marquinha, é porque o livro tem história. E livro que tem história é livro feliz.

8) Livro único ou série?
Livro único. Tem muita série que é encheção de linguiça. Isso sem contar as séries que seguem o mesmo tema de outras séries. Um monte de livros com histórias similares só pra fazer dinheiro. Não, obrigada.

9) Livraria física ou online?
Livraria física pra passar o tempo, online pra fazer compras. Não consigo comprar nas livrarias físicas! Primeiro, porque me dá uma agonia pensar que talvez o livro esteja mais barato em outro lugar. Segundo, se eu vou comprar o livro novo, então eu quero que ele venha perfeito. Na livraria os livros geralmente ficam expostos, aí acabam ficando com marquinhas na capa, pra dizer o mínimo. Se eu quiser um livro com história, vou no sebo, ué.

10) Livro longo ou curto?
Longo. Mas não o longo pq ficou enchendo linguiça. O longo que tem história. Gosto de histórias com tramas bem desenvolvidas e cheias de reviravoltas, e pra isso tem que ter espaço. Eu lembro do primeiro "livro grande" que eu li, Se Houver Amanhã, do Sidney Sheldon. Foi indicação da minha professora de português da oitava série. Depois eu fui pra um colégio onde só podia emprestar um livro por semana, então eu pegava só os livros maiores, e trocava com uma amiga, pra durar a semana inteira. Dessa época me marcou O Memorial de Maria Moura.

11) Drama ou ação?
Depende. Da lua, do clima, do humor...

12) Ler no seu canto ou tomando sol?
Eu sou aquela pessoa que vai na praia com um livro na bolsa e não deixa a água chegar acima dos joelhos. Mas eu leio em qualquer canto. Um lugar preferido mesmo não é nem um canto meu nem um lugar ao sol. É o Bosque do Papa em Curitiba. No outono, melhor ainda.

13) Chocolate quente, café ou chá?
Chá. Eu sou uma pessoa que toma chá. Embora não tenha paciência pra fazer chá gelado (esquentar... depois esfriar...) e a minha atual morada não permita o consumo frequente de chá. Aliás, essa chuvinha de hoje é uma boa desculpa pra fazer um chá de hortelã...

14) Ler resenha ou decidir por si?
Eu decido pela sinopse. Ou pela capa. Ou porque alguém que eu confio me indicou. Quase não leio resenha, só as de algumas pessoas específicas. Tem muita resenha ruim por aí. A pessoa fica resumindo tudo o que acontece na história e acha que é uma resenha. Se é pra ler isso, eu vou ler o livro, que é mais legal.