quarta-feira, 30 de julho de 2014

O Fantasma de Canterville (Oscar Wilde)



It's close to midnight
Something evil's lurkin' in the dark

Por séculos, a Reserva de Caça Canterville carregou a reputação de mal-assombrada. Não por acaso, pois contava com um fantasma competente para operar suas fantasmices. Manchas de sangue no chão, o arrastar de correntes à meia-noite e a habilidade de incorporar diferentes personagens assustadores são habilidades que constam no currículo desse renomado fantasma.
Há três séculos ele é bem conhecido, na verdade desde 1584, e sempre aparece às vésperas da morte de algum membro da nossa família, disse Lorde Canterville.

They're out to get you
There's demons closing in on every side

Pouco convencida pelos avisos dos vizinhos, a família de um diplomata americano mudou-se para a residência onde certamente não receberiam visitas. Foi assim que o Sr. e a Sra Otis com seus filhos Washington, Virginia e os gêmeos se intrometeram nos assuntos assombrosos do magnífico fantasma. Não existe nada mais irritante para um fantasma do que alguém que não o leve a sério. No entanto, jamais passou pela cabeça oca do fantasma que um dia seria tratado com tamanho desrespeito, especialmente pelos gêmeos, que passaram a assombrá-lo dia e noite.
Depois disso, ficou extremamente doente por alguns dias, mal saindo do quarto, a não ser para retocar a mancha de sangue.

'Cause I can thrill you more
Than any ghoul would ever dare try

Embora o título remeta a uma história aterrorizante, o que vemos é uma comédia que rapidamente se converte em um desfecho emocionante, como um roteiro da Sessão da Tarde, mas de uma delicadeza profunda. Sofrendo mais do que em toda a sua morte, o fantasma de Canterville se vê desesperado, e é nesse momento que encontra a solução para o descanso eterno, na família que o atormentava. Um conto que, em poucas páginas, faz rir e faz chorar.
Você pode me ajudar. Pode me abrir os portais da morte, porque traz o amor sempre com você, e o amor é mais forte do que a morte.

E o que mais?
Através da história do fantasma, Oscar Wilde dá conta de criticar a aristocracia inglesa e a cultura americana ao mesmo tempo. A primeira, marcada pelos títulos hereditários e pela cultura do luxo. A segunda, mergulhada no consumo e no pragmatismo. Wilde narra, antes de tudo, o conflito cultural entre Inglaterra e Estados Unidos, através de personagens estereotipados e caricatos que dão o tom de comicidade e ironia que marcam a obra. 

A edição que eu foi publicada pelo selo Barba Negra da editora Leya, na coleção Eternamente Clássicos. Tem ilustrações de Wesley Rodrigues e tradução de Elisa Nazarian. O miolo foi impresso em papel lux cream, muito confortável para a leitura. A arte de capa e os desenhos remetem a um estilo sombrio, mas imprimem a exata comicidade ou dramaticidade da cena retratada.

Comprei esse livro em Novembro de 2012, para completar a coleção "Eternamente Clássicos", composta também dos títulos O Corcunda de Notredame, O Mágico de Oz e A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça. O Mágico de Oz foi difícil de conseguir, e eu já vi edições mais novas que utilizam material de qualidade inferior.A coleção contaria também com outros títulos como O Corvo e O Jardim Secreto, mas parece que foi abortada. Nem o selo Barba Negra existe mais.

O conto foi a primeira história publicada de Wilde, primeiro em uma revista, depois no livro Lord Arthur Saville's Crimes and other stories. A história foi adaptada 5 vezes em filme para telinha e telona, e uma animação está em fase de pré-produção. A obra também se converteu em música, ópera e musical, foi publicada como graphic novel, dramatizada no rádio e inspirou um filme em Bollywood.


Os trechos em negrito são da música Thriller, de Michael Jackson. Coloquei a música no repeat enquanto escrevia, e agora não consigo tirar o Mark Foffalo da cabeça, muito embora ele não tenha relamente nada a ver com o livro. Alguém mais não consegue ouvir Thriller sem pensar em De Repente 30? o/

A edição que eu tenho está esgotada, mas a obra é de domínio público. Você pode comprar em qualquer livraria, ou fazer o download no seu computador do original ou da versão para o espanhol.

sábado, 26 de julho de 2014

Dos avós que eu tive

Eu nunca tive quatro avós.

Quando eu nasci eram três. E as histórias de uma avó Adelina, que foi homenageada com o meu nascimento - Annie Adelinne. Quando penso em vó Adelina, penso em uma mulher que sofreu muito. Não sei se é justa a imagem que eu tenho dela, mas é que não a conheci. Mineira, muquirana, muito honesta, batalhadora, mãe de 11 filhos, muitas vezes sozinha, algumas vezes solitária. Vi três ou quatro fotos da minha avó Adelina, que morreu de uma doença que, hoje, é a coisa mais besta do mundo: pedra na vesícula. A história da conversão dela é uma das mais lindas que eu conheço.

Quando meu irmão nasceu, três anos depois, já eram apenas dois. A imagem do vô Joviniano e do seu bigode, no entanto, só recordo das fotos que vi. Mas as histórias são tantas, que ele parece viver ainda através delas. Poderia ser um personagem de Ariano Suassuna ou de Jorge Amado. É o sanfoneiro profissional a quem toda a família se refere quando diz, orgulhosa "eu tenho a música no sangue". Festeiro, despreocupado, irreverente, mulherengo, muitas vezes ausente, mas nunca esquecido. Até na hora da morte estava distribuindo o que tinha, o chapéu a um, o relógio a outro...

Quando eu casei, era uma só. Meu avô Almerônio foi o avô que eu tive na vida. Ainda consigo ouvi-lo dizer "Menino malino! Fica bulinando no que não deve!" Lembro da sala onde ele fazia serigrafia, onde a presença de netos era proibida, o que só tornava as coisas mais interessantes. Eu, a única neta que foi morar longe, sempre fui alvo de mimos. Não podia pensar alto que tinha vontade de alguma coisa, que ela aparecia. Era quase mágica. Lembro de quando ele dirigiu da Bahia até Foz do Iguaçu, com o carro cheio de guloseimas baianas - um saco cheio de jambo só pra mim. Lembro de como ele acordava cedo e ligava o rádio do carro, tocando Roberto Carlos. Seu jeitinho discreto de dizer pro mundo que não é hora de dormir.

[O próximo parágrafo é triste, não pude deixar de escrever, faz parte da minha história com os meus avós, mas se quiser, pule para o próximo]

Lembro de quando minha mãe recebeu a notícia do câncer. Lembro do estado triste em que ele estava em sua última semana de vida, e agradeço a Deus por ter visto, por estar presente naquele momento, o último. Lembro do último olhar, quando me despedi dele pela manhã. Lembro de quando eu saí do banheiro do hotel em Salvador, pronta pra fazer um comentário indiscreto, e encarei três caras de assombro. Foi a primeira vez em que morreu alguém que eu conhecia. O choro do meu irmão, nos meus braços, dizendo que não queria ver morto o nosso avô. A viagem insone de volta ao interior da Bahia, acompanhando minha mãe. O choro cortante da minha avó. O cemitério, o momento exato em que ele foi descido à cova. Exatamente um mês depois, as lágrimas que eu segurava explodiram, enquanto o sol se punha no mar de São Luis do Maranhão. Ninguém disse nada. Não precisava. Há três anos e 11 dias meu avô morreu, e no dia 15 de julho de 2014 eu chorei de novo.

 

Hoje eu tenho uma avó. Vó Lourdes. A Dona Lourdes que todo mundo conhece. "Sou neta da Dona Lourdes" é um currículo completo em Camacan/BA. A única avó que eu conheci. Doce, sensível, disposta, batalhadora, talentosíssima. Todo mundo nessa família acha que prega um botão melhor que os outros, afinal, "minha avó é costureira de mão cheia". Ela fez o meu vestido de noiva à distância - eu só provei uma vez, com uma semana de antecedência. Mas isso porque ela tem experiência, com um armário cheio de vestidos de princesa das netas, quase uma linha do tempo em fita de cetim. Minha vó é uma fofa, e quem conhece concorda.

Eu nunca tive quatro avós, mas nunca me faltou. Eu não convivi tanto tempo com meus avós, como outros primos, mas nunca me faltou. Os avós que eu tive, pelo tempo que eu tive, e a avó que eu tenho ainda hoje, que deixa inbox no facebook com "BEIJOS DA VOVÓ", eles são mais do que eu mereço ♥

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Eu não me identifico com o feminismo

Não sei se é segredo pra alguém, mas eu estou em eterna conferência via email com alguns amigos mais chegados, conversando sobre todo tipo de coisa útil ou inútil e um dos temas polêmicos do grupo é o feminismo.

Falar sobre o tema é muito complicado, porque não existe um significado uníssono pra esse termo. De um lado, tem o feminismo" formado por putas feitas que não se depilam, odeiam os homens e querem dominar o mundo". De outro lado, tem o feminismo das mulheres oprimidas pelo machismo e pelo patriarcado e que exigem liberdade, mesmo que custe a liberdade alheia, afinal, todos os homens são estupradores em potencial. Enquanto isso, o famoso "feminismo é a luta pela igualdade" vai se tornando um mito...

Por trás da ideia de igualdade e de direito de escolha, existe sempre alguma dominação.


Pra começar, a ideia de igualdade é uma ideia falsa e opressora, porque as pessoas não são iguais. A única coisa que nos faz iguais é o fato de sermos todos humanos, e isso corresponde a um núcleo mínimo de direitos que todas as pessoas devem desfrutar, do qual ninguém pode abrir mão, independente de gênero, idade, cultura, religião ou o que for. Mas fora desse núcleo irredutível que corresponde à dignidade das pessoas, ninguém é igual. E essa é a graça. É por isso que convivemos em sociedade, que precisamos dos outros. Cada ser humano é único!

E é aí que vem uma coisa linda. Como cada ser humano é único, não existe "coisa de homem", "coisa de mulher", "coisa de asiático", "coisa de brasileiro". É claro que muitas dessas "coisas" serão encontradas mais facilmente em um grupo identificado de pessoas, mas por nenhum outro motivo senão o modo que foram criadas e como se relacionam na sociedade. Isso significa que cada um pode fazer o que quiser, mas também significa que os critérios para julgar devem ser iguais.

Eu vejo que muitas "bandeiras feministas" não têm o objetivo de tornar as coisas legais pra todo mundo, mas dar à mulher a liberdade de fazer aquilo de mais escroto , nojento e repugnante que os homens fazem por causa do machismo. A luta não é para que as atitudes machistas sejam eliminadas, mas que elas sejam liberadas pra todo mundo. Acontece que o que é feio pra um, é feio pro outro também. O que é degradante e fere a dignidade do homem (muito embora ele possa pensar que está abafando), também é degradante para s mulheres. O negócio é não nivelar por baixo.

Eu li recentemente um livro muito interessante chamado "O Machismo Invisível" (Marina Castañeda), que fala especialmente como o machismo afeta a vida dos homens. Claro, o machismo faz mal pra todo mundo. Oprime todas as pessoas. Faz com que os homens tenham que adotar uma atitude determinada para que sejam considerados "homens" pelos demais.

O que me deixou triste é que, quando a autora apresentava soluções para os problemas apontados, ela nunca considerou que as pessoas devem dialogar e combinar a forma como funciona melhor pra elas. Se o marido tem direito a ter sua conta particular e gastar como quiser, comprando um carro, por exemplo, sem falar com a esposa, então a esposa também deve ter sua conta particular e gastar como quiser, comprando um carro, por exemplo, sem falar com o marido. A ideia de que o esposo e a esposa devem conversar um com o outro sempre que quiserem usar o dinheiro da família pra comprar um carro, por exemplo.

É triste porque aquelas características consideradas "femininas", de consideração com o outro, de compaixão, de sensibilidade, são vistas como fraqueza, enquanto o egoísmo e a independência são supervalorizados. Isso nos enfraquece como sociedade.

Será que ninguém ainda pensou que certas coisas simplesmente não deveriam acontecer de forma alguma? Que se é nojento que um homem use as mulheres como objetos sexuais descartáveis, que seja violento, que não permita que elas expressem sua opinião, a recíproca também é verdadeira? Que anos de oprimido não justificam o desejo de opressão? Por que o modelo de mulher ideal é uma Lara Croft toda-poderosa que não precisa de ninguém e se vira sozinha? Por que, em vez de querer formar mulheres super-independentes, não autorizamos os homens a serem sensíveis, compassivos e dependentes?

Aqui entra a questão do direito de escolha. Porque se o modelo desejado é o da mulher que se despiu da fraqueza (aquelas características que a sociedade considera femininas) e se revestiu de super-poderes (aquelas características que a sociedade considera masculinas), as escolhas da mulher serão livres apenas se ela escolher se despir de sua fraqueza e se revestir de super-poderes. A mulher que escolhe ser mãe em tempo integral é oprimida. A mulher que é dona de casa é coitada. A mulher que dá de quatro está se sujeitando a um modelo de submissão.

As mulheres de hoje (e eu falo principalmente por mim) carregam nas costas o peso da obrigação de ser bem-sucedida. Aquela obrigação de esfregar na cara dos homens que podemos ser qualquer coisa, fazer qualquer coisa, ou mesmo que somos melhores que eles. O corpo é seu, a vida é sua, você é livre pra ser puta, mas não pra casar, pra deixar o mercado de trabalho, ou pra nunca entrar nele. Você não é livre pra amar e paparicar o seu marido (mesmo que em reciprocidade).

É por isso que eu não me identifico com o feminismo. Porque é muito arriscado se identificar com uma luta que não tem mais identidade. E não acredito no ideal de igualdade de gênero. Porque o que eu acredito é nesse núcleo irredutível de direitos para todos os humanos. E que para que todos desfrutem desse núcleo mínimo, precisamos nos despir do nosso egoísmo, da nossa independência, da nossa necessidade de fazer sucesso, e sermos todos mais servos, mais humildes, mais compassivos, mais "femininos".

sexta-feira, 11 de abril de 2014

[TAG] Isso ou Aquilo? - Livros


Eu lembro da época que isso se chamava caderninho de respostas. Aí veio a internet e o caderninho de respostas virou meme. Aí meme virou outra coisa e o meme virou tag. Enfim, essa tag eu vi no Suspiscious Minds, da Roberta Faria, e resolvi fazer porque achei legal.

1) Áudio-livro ou livro?
Tenho trauma de áudio-livro. Meu pai tinha vários e ele colocava pra ouvir no carro, mesmo os livros chatos que só ele queria ouvir. Teve uma vez que ele fez isso numa viagem. Ui, que horror. Além do mais, com os livros eu imagino as vozes que eu quiser :)

2) Capa dura ou mole?
Capa dura ♥ Tem gente que acha que atrapalha pra ler e tal, e se não for bem feita, o livro vai acabar estragando, mesmo. Mas eu gosto da capa firme, especialmente quando eu estou lendo e andando na rua e segurando outras coisas e o vento tentando virar as páginas (eu vivo perigosamente). Além de ser super lindo, né?

3) Ficção ou não-ficção?
Estou numa fase de não-ficção. Sério. Acho que é abstinência da faculdade ou um chá de adultice que eu tomei sem perceber. Aliás, eu notei isso ontem quando fui escolher a próxima leitura e fiz questão de pegar um livro de ficção.

4) Fantasia ou vida real?
Fantasia! Uma coisa que eu gosto da ficção é que você não precisa seguir os padrões chatos da vida. Não precisa ser preciso. Você pode usar a imaginação à vontade, criar mundos, criar poderes, criar seres... Existem tantos mundos interessantes na ficção! Oz, Nárnia, Terra Média, País das Maravilhas... Quem nunca teve vontade de viajar pra um lugar desses?

5) Harry Potter ou Crepúsculo?
Harry Potter eu não li. Crepúsculo eu li. Não dá pra decidir só porque eu li um e não o outro.

6) E-book ou livro físico?
Livro físico. Muito embora eu esteja querendo demais comprar um e-reader, não acho que um livro digital substitui um livro na minha estante.

7) Comprar ou pegar emprestado?
Cadê a opção ganhar? Sou muito mão de vaca. Vivo emprestando e pegando livro emprestado. Biblioteca sempre foi uma zona de conforto pra mim. E não me incomodo querendo que os livros permaneçam novos pra sempre. Na real, é um desperdício comprar um livro que só vai ser usado uma vez. (Existe um princípio da economia pelo qual as coisas são mais baratas quanto mais elas são usadas. Um sapato de cinquenta reais usado duas vezes sai mais caro que um de cem reais usado cem vezes). Acho que o livro fica triste. E se sujar, se riscar, se fizer uma marquinha, é porque o livro tem história. E livro que tem história é livro feliz.

8) Livro único ou série?
Livro único. Tem muita série que é encheção de linguiça. Isso sem contar as séries que seguem o mesmo tema de outras séries. Um monte de livros com histórias similares só pra fazer dinheiro. Não, obrigada.

9) Livraria física ou online?
Livraria física pra passar o tempo, online pra fazer compras. Não consigo comprar nas livrarias físicas! Primeiro, porque me dá uma agonia pensar que talvez o livro esteja mais barato em outro lugar. Segundo, se eu vou comprar o livro novo, então eu quero que ele venha perfeito. Na livraria os livros geralmente ficam expostos, aí acabam ficando com marquinhas na capa, pra dizer o mínimo. Se eu quiser um livro com história, vou no sebo, ué.

10) Livro longo ou curto?
Longo. Mas não o longo pq ficou enchendo linguiça. O longo que tem história. Gosto de histórias com tramas bem desenvolvidas e cheias de reviravoltas, e pra isso tem que ter espaço. Eu lembro do primeiro "livro grande" que eu li, Se Houver Amanhã, do Sidney Sheldon. Foi indicação da minha professora de português da oitava série. Depois eu fui pra um colégio onde só podia emprestar um livro por semana, então eu pegava só os livros maiores, e trocava com uma amiga, pra durar a semana inteira. Dessa época me marcou O Memorial de Maria Moura.

11) Drama ou ação?
Depende. Da lua, do clima, do humor...

12) Ler no seu canto ou tomando sol?
Eu sou aquela pessoa que vai na praia com um livro na bolsa e não deixa a água chegar acima dos joelhos. Mas eu leio em qualquer canto. Um lugar preferido mesmo não é nem um canto meu nem um lugar ao sol. É o Bosque do Papa em Curitiba. No outono, melhor ainda.

13) Chocolate quente, café ou chá?
Chá. Eu sou uma pessoa que toma chá. Embora não tenha paciência pra fazer chá gelado (esquentar... depois esfriar...) e a minha atual morada não permita o consumo frequente de chá. Aliás, essa chuvinha de hoje é uma boa desculpa pra fazer um chá de hortelã...

14) Ler resenha ou decidir por si?
Eu decido pela sinopse. Ou pela capa. Ou porque alguém que eu confio me indicou. Quase não leio resenha, só as de algumas pessoas específicas. Tem muita resenha ruim por aí. A pessoa fica resumindo tudo o que acontece na história e acha que é uma resenha. Se é pra ler isso, eu vou ler o livro, que é mais legal.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Ajudando as pessoas

No meu último ano de faculdade, estava voltando do estágio na promotoria da infância e juventude, quando o ônibus parou no terminal e subiu um rapaz com um discurso comovente. Ele precisou de ajuda para subir no ônibus e se locomovia com dificuldade. Vinha pedir ajuda financeira. A história dele era a seguinte:

O rapaz trabalhava como motoboy, até que sofreu um acidente. A moto, que era dele, ficou inutilizada. Ele também sofreu gravemente, precisou fazer duas cirurgias na perna, ficou muito tempo internado, sem poder prover o sustento à sua família, e ainda não estava recuperado, pois não conseguia caminhar direito. Também não podia voltar a exercer sua profissão, não só porque não tinha mais moto, mas também porque não conseguia mais pilotar. Como não trabalhava com carteira assinada, ficou totalmente desamparado pelo empregador. Não recebeu seguro-desemprego, indenização, despesas médicas, mesmo tendo se acidentado enquanto estava trabalhando. 
Agora estava em uma situação particularmente difícil, porque sua filha, um neném de poucos meses, precisava tomar um leite especial, que geralmente é fornecido gratuitamente nos postos de saúde, mas que agora estava em falta. Sem condições de alimentar a criança, prestes a ser despejado, disse que o Conselho Tutelar queria tirar a criança dos braços da mãe, que estava naquele momento conversando com o conselheiro do lado de fora do terminal. Precisava de dinheiro para comprar o leite da criança. Agradeceu com lágrimas e desceu.

Enquanto o ônibus se afastava eu comecei a ficar angustiada. Aquele rapaz não precisava estar naquela situação se ele não fosse ignorante sobre os próprios direitos. Deu vontade de descer atrás dele e dar alguma orientação jurídica, tirar aquele homem daquela situação de abuso e injustiça em que ele se encontrava só porque ele não sabe que tem direitos. No caminho pra casa, eu chorei por causa dele, e entrei em crise, pensando na minha covardia e na falta de iniciativa em ajudar uma pessoa que precisava de algo que eu poderia oferecer. Por vários dias eu fiquei mal por causa daquela situação, achando um desperdício todo o meu conhecimento se eu não tinha a capacidade de descer de um ônibus pra ajudar uma pessoa em necessidade.

Outro dia eu tive que voltar a Curitiba pra resolver alguma coisa - eu quase não parei em casa em fevereiro - e estava no ônibus para voltar pra casa, na rodoviária quando entrou um rapaz meio desesperado. Ele contou que precisava viajar com a mulher e a filha, mas a criança acabou de completar seis anos, e precisaria de uma passagem para viajar. Disse que ele não sabia e não estava preparado pra isso, juntou todas as economias, mas ainda faltavam vinte reais. Era o mesmo rapaz. Milagrosamente curado e com uma filha que envelhece um ano por mês. Foi quando eu passei a me questionar.

Por que algumas pessoas preferem se humilhar com uma história inventada para pedir dinheiro do que trabalhar para conquistar suas coisas? Por que as pessoas dão dinheiro sabendo que pode ser um golpe? Afinal, não existem mil maneiras mais eficientes de ajudar a comunidade, de estender a mão e de ser solidário? Essas pessoas que sustentam a mendicância seriam as mesmas que não doam sangue, não fazem um trabalho voluntário, não doam dinheiro pra quem faz um trabalho de desenvolvimento comunitário e realmente precisa de ajuda financeira? Será que essas pessoas realmente pensam que estão ajudando alguém ou só querem se livrar de um problema ou de uma carga de culpa por nunca fazer nada?

Eu preciso, preciso, preciso que exista mais alguém inconformado nesse mundo, porque desse jeito não dá.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Ensaio sobre a Cegueira (José Saramago)


Still looking for the blinding light
Uma cegueira branca. Repentinamente, uma pessoa deixa de enxergar. Seu mundo não se encheu de escuridão, mas de um clarão, como uma neblina espessa ou um refletor inquietante. Os personagens que não têm nome, um a um, descobrem que não enxergam mais, enquanto o leitor é apresentado a um mundo dominado pelo medo, pela dúvida e pela cegueira. 
O primeiro cego: pra mim é como se não houvesse noite.

None of us are bullet proof
Os primeiros cegos são postos em quarentena, em um prédio abandonado que antes fora um manicômio. Não demora muito para que as coisas fujam de controle e a construção volte à sua antiga função. Com mais doentes do que pode acomodar, pouca comida e higiene nenhuma, resta pouco lugar para a solidariedade. Não existe confiança cega. As medidas de emergência são inúteis. Os pesquisadores cegaram. Os cuidadores cegaram. Os governantes cegaram. Os guardas cegaram.
O médico: o mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos.

You're the vision that gives me sight
Uma única pessoa, a mulher do médico, misteriosamente conserva a sua visão durante todo o tempo. Fingindo estar cega, acompanha o marido até a quarentena, onde assiste o horror que aos demais é poupado. Ao mesmo tempo em que pode ajudar a um seleto grupo de pessoas anônimas, se desespera com a sua ocasional impotência. Ela tem medo que os outros descubram a sua visão e a tornem escrava. Quando não existem mais sãos para vigiar os cegos, a mulher do médico conduz o grupo pela cidade, em busca de abrigo e comida. É pelos seus olhos que observamos o caos e a crueza de um mundo sem aparências.
 A mulher do médico: o único milagre que podemos fazer seria o de continuar a viver.

E o que mais?
O Ensaio sobre a Cegueira é um livro sofrido sobre o sofrimento e a maldade humana. Nas palavras do autor, "Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo.". A escrita é fluida no estilo, como um senhor de idade a contar uma história para um desconhecido no ponto de ônibus. O conteúdo, por outro lado, é quase um vômito. Não tem nenhum pudor em expor toda a imundície que está no interior do homem.

É um livro muito sincero, que colocou muitos 'e se...' na minha cabeça. Comecei a imaginar todas as situações que o livro não expõe, mas que poderiam acontecer naquele cenário. E se uma grávida entrasse em trabalho de parto? E o que terá acontecido com os bebês? E se os cegos conseguissem, afinal, organizar um novo governo, como ele seria? E se essa epidemia desse lugar a outras epidemias? E se toda a comida já produzida acabasse completamente?

A edição da Companhia das Letras é aquela delicinha em papel polen soft <3. Quanto à arte da capa... não entendi o que significa. Se alguém quiser explicar nos comentários... A ortografia é a utilizada em Portugal, por desejo do autor. E o jeito de escrever é confuso até a 30ª página. Saramago não é fácil com os parágrafos e pontos finais. Também não usa travessão ou aspas, só uma letra maiúscula e uma vírgula separam uma fala da outra.

A capa do livro é branca, e ficou bastante suja, porque esse livro passeou bastante. (Eu tenho uma nova teoria de que os melhores livros são aqueles que foram vividos, que livro sujo é livro que foi lido, que as cicatrizes são sinal de que ele foi bem aproveitado e os rabiscos de lápis significam que alguém estava prestando mais atenção no conteúdo que na forma). O livro é meu nosso, mesmo. Foi presente de casamento (na nossa lista de presentes só tinha livros).

A história foi adaptada para o cinema em 2008, com Juliane Linda Moore e Mark Fofo Ruffalo interpretando o casal Médico e Mulher do Médico, e o brasileiro Fernando Meirelles na direção. Ficou tão legal que até o autor curtiu. Com uma fidelidade impressionante, tive a impressão de que a única adaptação no roteiro foi o corte de algumas cenas que tornariam a película muito extensa. (Mas eu senti falta das cenas do armazém do supermercado). O filme está disponível no Netflix, mas dublado em português :/

Os trechos em negrito são da música Blinding Light, de Switchfoot.

É uma leitura que exige estômago e, pra quem não leu Saramago, um pouco de força de vontade pra vencer as primeiras trinta páginas. Você pode adquirir o seu exemplar físico ou e-book na loja da editora Companhia das Letras ou nas principais livrarias.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Dinâmica

Parece que eu entrei no tornado de Oz e de repente estou nessa vida diferente. De vez em quando vem aquela sensação de "Ei, essa é a minha vida a partir de agora." e às vezes aquela dúvida "Isso aqui é a vida real ou eu vou acordar?". Não é a arena dos jogos, não é o país das maravilhas... só que muita coisa é diferente agora.



A #alunafederal agora é egressa. A #estagiária agora é desempregada dona de casa. A #estudantededireito agora faz a sua própria agenda de estudos. A minha #metadecuritibana ainda não se conforma com o verão africano de Foz do Iguaçu (e tudo o que acompanha esse clima quente e úmido pra fazer inveja à selva amazônica). Quem vivia #movidaamúsica agora está viciadíssima em séries (se a Netflix me pagasse pra fazer propaganda...). A #namorada agora é esposa, com direito a nome comprido e tudo mais. A #profissional ainda está pensando o que vai fazer da vida. 

É, muita coisa mudou, e não dá pra voltar atrás. Não que eu esteja arrependida. É que essa história de que nem se eu quisesse eu poderia desfazer isso tudo dá um frio na barriga, afinal de contas, as decisões já foram tomadas. Estou aqui, com aquele medinho lá no fundo, mas feliz, iniciando um novo ciclo, uma nova fase, cheia de novos marcadores para os novos posts do blog que... bom, esse é o de sempre.