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sexta-feira, 5 de setembro de 2014

É interessante como a tendência é louvar atitudes e valores que foram antes considerados impróprios, ao mesmo tempo em que se despreza aquilo que, na verdade, se deveria buscar. Foi assim que "boazinha" virou adjetivo pejorativo, que "humildade" se tornou defeito (ou eufemismo pra pobreza - gente, nada a ver). Ao mesmo tempo, a falta de sensibilidade, o egoísmo, o orgulho, a libertinagem passaram a ser virtudes.

Ontem li um texto que dizia:
Resumindo: sejam agradáveis, simpáticos, amáveis, compassivos, humildes. Isso vale para todos, sem exceção. Nada de retaliação. Nada de língua afiada para o sarcasmo. Em vez disso, abençoem, que é a obrigação de vocês. Assim, serão uma bênção e também receberão bênçãos. (I Pedro 3:8-9 - A Mensagem)

A princípio, o texto me deixou irritada. Quer dizer, não pode nem fazer uma piada? Será que essa tradução não está exagerada? Ser sarcástico é tão legal! É uma característica das pessoas inteligentes e geniais... Até que eu comecei a refletir o que significa realmente ser sarcástico. Toda vez que eu falo com sarcasmo, eu estou desprezando uma pessoa - seja o interlocutor ou o objeto. Os comentários sarcásticos, que de maneira imediata servem para demonstrar a sua inteligência e sagacidade, provocar risos na plateia que você deseja impressionar, não passam de um comentário amargo sobre algo ou alguém.

Procurei no dicionário e me assustei com a definição do Aulete:
(sar.cas.mo)
sm.
1. Zombaria amarga e insultuosa

O sarcasmo é um recurso valioso demais
para gastá-lo ofendendo a pessoas como você
Entre as palavras relacionadas, encontrei desrespeito, ridicularização, reprovação. Analisei a minha conduta e as minhas palavras, e me entristeci ao constatar que o dicionário dizia a verdade. Todo sarcasmo é um insulto. Quando eu falo com sarcasmo, eu sou mais uma na onda do politicamente incorreto - um nome cool pra fazer o que é errado. A internet é o palco perfeito para destilar veneno, e a gente sente o poder nas mãos, na boca, na língua quando a usamos contra outra pessoa, muitas vezes pelas costas.

Que possamos refletir sobre a nossa má conduta, antes que alguém morda a língua e morra com o próprio veneno.

Pílulas de sarcasmo

sexta-feira, 14 de março de 2014

No meu último ano de faculdade, estava voltando do estágio na promotoria da infância e juventude, quando o ônibus parou no terminal e subiu um rapaz com um discurso comovente. Ele precisou de ajuda para subir no ônibus e se locomovia com dificuldade. Vinha pedir ajuda financeira. A história dele era a seguinte:

O rapaz trabalhava como motoboy, até que sofreu um acidente. A moto, que era dele, ficou inutilizada. Ele também sofreu gravemente, precisou fazer duas cirurgias na perna, ficou muito tempo internado, sem poder prover o sustento à sua família, e ainda não estava recuperado, pois não conseguia caminhar direito. Também não podia voltar a exercer sua profissão, não só porque não tinha mais moto, mas também porque não conseguia mais pilotar. Como não trabalhava com carteira assinada, ficou totalmente desamparado pelo empregador. Não recebeu seguro-desemprego, indenização, despesas médicas, mesmo tendo se acidentado enquanto estava trabalhando. 
Agora estava em uma situação particularmente difícil, porque sua filha, um neném de poucos meses, precisava tomar um leite especial, que geralmente é fornecido gratuitamente nos postos de saúde, mas que agora estava em falta. Sem condições de alimentar a criança, prestes a ser despejado, disse que o Conselho Tutelar queria tirar a criança dos braços da mãe, que estava naquele momento conversando com o conselheiro do lado de fora do terminal. Precisava de dinheiro para comprar o leite da criança. Agradeceu com lágrimas e desceu.

Enquanto o ônibus se afastava eu comecei a ficar angustiada. Aquele rapaz não precisava estar naquela situação se ele não fosse ignorante sobre os próprios direitos. Deu vontade de descer atrás dele e dar alguma orientação jurídica, tirar aquele homem daquela situação de abuso e injustiça em que ele se encontrava só porque ele não sabe que tem direitos. No caminho pra casa, eu chorei por causa dele, e entrei em crise, pensando na minha covardia e na falta de iniciativa em ajudar uma pessoa que precisava de algo que eu poderia oferecer. Por vários dias eu fiquei mal por causa daquela situação, achando um desperdício todo o meu conhecimento se eu não tinha a capacidade de descer de um ônibus pra ajudar uma pessoa em necessidade.

Outro dia eu tive que voltar a Curitiba pra resolver alguma coisa - eu quase não parei em casa em fevereiro - e estava no ônibus para voltar pra casa, na rodoviária quando entrou um rapaz meio desesperado. Ele contou que precisava viajar com a mulher e a filha, mas a criança acabou de completar seis anos, e precisaria de uma passagem para viajar. Disse que ele não sabia e não estava preparado pra isso, juntou todas as economias, mas ainda faltavam vinte reais. Era o mesmo rapaz. Milagrosamente curado e com uma filha que envelhece um ano por mês. Foi quando eu passei a me questionar.

Por que algumas pessoas preferem se humilhar com uma história inventada para pedir dinheiro do que trabalhar para conquistar suas coisas? Por que as pessoas dão dinheiro sabendo que pode ser um golpe? Afinal, não existem mil maneiras mais eficientes de ajudar a comunidade, de estender a mão e de ser solidário? Essas pessoas que sustentam a mendicância seriam as mesmas que não doam sangue, não fazem um trabalho voluntário, não doam dinheiro pra quem faz um trabalho de desenvolvimento comunitário e realmente precisa de ajuda financeira? Será que essas pessoas realmente pensam que estão ajudando alguém ou só querem se livrar de um problema ou de uma carga de culpa por nunca fazer nada?

Eu preciso, preciso, preciso que exista mais alguém inconformado nesse mundo, porque desse jeito não dá.

Ajudando as pessoas

sexta-feira, 29 de março de 2013

(Ó eles aqui traveis...)

Bem-vindo ao mundo da internet, onde só é permitido amar ou odiar. Não dá pra simplesmente gostar ou não gostar. Ou estar nem aí pra isso. Cada manifestação é um discurso inflamado que contém muito mais ódio que amor. Até quando se ama alguma coisa, odeia-se os que não amam. Qualquer assunto - um livro, uma marca, um sabor de macarrão instantâneo - vira motivo de discurso.

O problema é quando o alvo do discurso são as pessoas. "Brasileiro deveria canalizar seus ódios contra a corrupção". Mas é claro. E contra a fome, a miséria, a injustiça... Odiar uma atitude, uma situação ou uma consequência é muito diferente de odiar quem a provocou. Muito mais difícil, é claro, porque se eu odeio uma pessoa posso responsabilizá-la por um monte de coisas, até pelo que não disse ou fez. A internet aceita tudo e os haters always gonna hate. Enquanto tem plateia tá tudo certo.

Você é a guerra que você luta. Se sua guerra que não vale a pena...

Age don't matter like race don't matter like place don't matter like what's inside.

Música da Semana: The War Inside (Switchfoot)

quarta-feira, 21 de novembro de 2012



Usada.

Eu nunca pensei que aconteceria comigo. Também não pensei como eu reagiria se acontecesse. Quando eu contei, me perguntaram logo porque eu não gritei, ou bati no cara, ou provoquei um escândalo. Eu nunca pensei que minha reação fosse ficar sem reação.

Não que nunca tivesse vivido situações decorrentes dessa mentalidade de que as mulheres estão aí para a satisfação masculina, mas nunca, nunca de forma tão invasiva e desrespeitosa.

Foi assim: quarta-feira, por volta das sete horas da manhã, entrei em um ônibus lotado porque estava atrasada. Vestia uma camisa simples e uma calça de alfaiataria, que estava um pouco justa pelos quilos que ganhei nos últimos meses, mas não do tipo que impede a respiração. O que eu quero dizer, especificamente, é que a roupa que eu vestia não era um convite a nada. Eu não estava pedindo nada. Eu não me vestia de forma indecente e, definitivamente, eu não tenho culpa pelos meus quadris avantajados e não tenho obrigação de escondê-los de ninguém. 

Então, eu estava em um ônibus lotado, e até aí não vemos nada demais. Ônibus lotado às sete da manhã é a coisa mais normal do mundo. O que aconteceu em seguida, no entanto, não é normal. Pode até ser comum, mas eu tenho certeza de que não é normal. Na tentativa de encontrar um lugar minimamente confortável, me meti entre duas senhoras que conversavam animadamente e um rapaz sonolento encostado em uma porta. Fiquei de frente para a janela; atrás de mim, tudo o que eu menos esperava.

Dentro de um ônibus lotado, não dá pra levar tudo a ferro e fogo. Existem apertos, empurrões e puxões que não acontecem de propósito e que, muitas vezes, não dá pra evitar. Mas não foi nada disso o que aconteceu. Cerca de cinco minutos depois, eu o senti aproximando-se atrás de mim. No início não percebi e não dei a menor importância - o ônibus estava lotado. Foi como um estalo. Despertei de qualquer coisa que estivesse pensando naquela hora ao sentir uma pressão no ânus. Com algum esforço, me torci para olhar para aquela região, para verificar se foi o esbarrão da pasta de alguém ou qualquer outro movimento involuntário, mas vi apenas um par de calças cobrindo um volume pouco discreto.

Eu não acredito que isso está acontecendo comigo. Meu primeiro instinto foi fugir. Olhei, agoniada, para um lado e para o outro, mas não havia escapatória. Ele me encurralara entre o rapaz e as duas senhoras e eu não tinha como escapar pela frente ou pelas laterais. Se me movesse para trás, cederia ao seu desejo nojento. Olhei por cima do ombro. Era um homem de cabelos completamente brancos, camisa azul, com ombros fortes postos muito acima da minha cabeça. Agora já não tenho certeza se ele era assim tão alto ou se eu é que me sentia assim tão pequena.Com suas calças, fazia movimentos persistentes, aproveitando-se principalmente das curvas - favoráveis ou não ao seu movimento.

Eu sinto tanta vergonha. Eu sabia que não era minha culpa, mas me senti humilhada. Usada. Um constrangimento que eu senti que me levaria às lágrimas, mas elas não vieram. Uma raiva que eu imaginei que me faria gritar, mas eu não tinha voz. Eu não tinha fôlego. Eu não conseguia respirar. Olhei novamente por cima do ombro e percebi que tinha muito espaço livre por trás do homem. Ele não precisava ficar ali, tão perto de mim. 

Eu quero sair daqui. O trajeto até a primeira parada durou dez minutos. Dez minutos que nunca foram tão longos. Eu estava entre as duas portas, mas não esperei que as pessoas saíssem. Me atirei para o lado mais distante possível daquele dentro do ônibus e fiquei vigiando qualquer pessoa que se aproximasse. Eu não estava ouvindo as músicas que tocavam nos meus fones de ouvido. Eu não conseguia dar sentido às palavras do livro à minha frente. Eu não conseguia pensar em nada.

Dói tanto. Ser usada dói tanto. Eu cheguei à faculdade e me sentei na cadeira, mas não me senti confortável. Apesar de não ter penetrado profundamente, o tecido da minha calça era elástico o bastante e o corte dava sobras para permitir alguma penetração, e a fricção dos tecidos só piorou a sensação. Meu corpo ardia, meu interior também.

Não sei se por coincidência boa ou ruim, naquele dia o professor de Direito Penal iniciou a matéria dos crimes contra a dignidade sexual, e eu me sentia tão indigna. Usada. Coisificada. Como se eu não valesse nada, e o simples fato de estar ali fosse razão suficiente para que qualquer pessoa pudesse usar o meu corpo para ter prazer sexual.

Pela minha mente passaram várias cenas diferentes: o cara que acha que tem o direito (ou o dever?) de cantar uma mulher, da maneira mais vulgar, só porque meu tipo físico lhe agrada; o cara que não tem o menor pudor de levar para a cama a gatinha bêbada que encontrou na balada; o cara que força a companheira a cumprir o seu papel de mulher, até com ameaças e agressões; o cara que entra no quarto da filha de sete anos dizendo que ela vai ganhar um presente se não contar nada à mamãe.

Nenhuma delas tem culpa. A culpa é do estuprador, que sente que o mundo gira em torno do seu pau. Quando eu recuperei minha voz, decidi que não me calaria. Eu contei pra todo mundo porque eu não quero que isso aconteça com outras pessoas. Porque eu quero que eles saibam que nós estamos de olho. E não vamos nos calar.
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Esse post faz parte da Blogagem Coletiva "Vá se arrumar que hoje vou lhe usar". No dia 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher, haverá um post de fechamento, com todos os links que participaram. Ainda dá tempo. Participe e divulgue.

Blogagem Coletiva: Vá se arrumar que hoje eu vou lhe usar

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

"Vivemos em uma sociedade que ensina as mulheres a não serem estupradas, e não os homens a não estuprar". Essa frase foi retirada de um cartaz da Marcha das Vadias que, assim como esse post, não é sobre sexo, é sobre violência.

Quem acompanha meu twitter pessoal viu que ontem eu sofri um assédio sexual. Não que eu me sentisse inatingível: uma a cada três mulheres no mundo será abusada sexualmente de alguma forma durante a sua vida. Um terço de todas as mulheres do mundo. Ontem eu fui constrangida no ônibus por um pênis se infiltrando na minha retaguarda sem pedir licença. Meninas abrem as pernas para o papaizinho, mas a mãe não acredita. Jovens são tratadas como peça de exposição no mundo dos tarados enquanto pensam que estão apenas vivendo suas vidas. Mulheres são constrangidas a fazer sexo achando que é seu dever.

Pra quem está confuso, vou explicar o que é estupro. Como crime, é definido pelo Código Penal, que antigamente dizia que era o constrangimento de mulher a ter conjunção carnal (ou seja, penetração do pênis na vagina). Acontece que houve uma reforma em 2009, e hoje estupro é o constrangimento sobre qualquer pessoa a ter conjunção carnal ou praticar/permitir que alguém pratique ato libidinoso (ato de satisfação da libido, isto é, do desejo sexual). Quando se fala em constranger, significa obrigar. Trocando em miúdos, quem comete estupro obriga alguém a fazer sexo ou praticar/permitir que o estuprador pratique outro ato para a satisfação da libido.

Esse post é uma convocação para a blogagem coletiva que acontecerá no dia 21 de novembro de 2012. A convocação é para mulheres e homens. Pra quem já foi estuprado e pra quem nunca foi. Especialmente, uma convocação pra quem é contra o uso das mulheres como objeto sexual. Ei, estuprador, compra uma boneca inflável!



Regras:
- Incluir no post o banner da blogagem coletiva.
- Colocar um link para este post.
- Postar seu texto no dia 21 de novembro de 2012.
- Deixar um link para seu post nos comentários.

(Pela relevância do tema, quem quiser participar, mas não tem blog, pode publicar seu texto no Facebook e deixar o link nos comentários. Quem não tem blog, nem facebook... ah, gente, não vale um tweet, mas se você consegue ser criativo de outras formas, fique à vontade e contribua para a causa. Se você não consegue fazer um texto ou qualquer coisa criativa, mas quer fazer alguma coisa, divulgue a campanha!)

No dia 25 de novembro de 2012, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, haverá um post com todos os links da blogagem coletiva.

Blogagem Coletiva Antiestupro: "Vá se arrumar que hoje eu vou lhe usar"

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Você se muda para a beira do fim do mundo, onde não tem GVT, nem NET, nem qualquer outra operadora telefônica, senão a linda da Oi, que lhe oferece míseros 2M de internet, se você tiver a sorte de conseguir isso tudo. A demora para instalação que é de praxe. A instalação pela metade no primeiro dia que também é habitual. O telefone funciona, a internet, não. 

O dono da casa começa a receber ligações de call centers, todas dizendo que seria necessário completar a instalação da internet, e que para isso seria necessária a instalação do provedor. Para instalar o provedor, precisam dos seus dados. Foi bem nessa hora que eu, a responsável pela linha, cheguei em casa, quando meu pai estava ao telefone com uma dessas ligações bem suspeitas.

A moça pedia os meus dados, como nome, CPF, agência e conta bancária... De onde a moça fala? Do serviço de internet, ela responde. Sim, mas de que empresa? Eu me irrito só de lembrar da hesitação da funcionária adestrada a aplicar golpes em consumidores pouco informados em dizer para qual empresa estava trabalhando. (Algumas pessoas dizem que a pessoa está só fazendo o seu trabalho e blablablá, mas o mercado de trabalho é grande. Ninguém precisa trabalhar naquilo que é contra sua ética, é uma questão de princípios. Pena que nem todos têm princípios.) 

A moça insistia que eu precisava fornecer os dados da minha conta bancária ou do meu cartão de crédito, pois de outra forma a minha internet não funcionaria. Respondi que a empresa não precisava de dado nenhum, porque eu pagaria a fatura assim que ela chegasse em minha residência. A moça se irritou e engrossou comigo. Eu engrossei com ela e exigi que ela me dissesse em nome de que empresa ela trabalhava. A resposta: Terra Networks Brasil.

Desliguei o telefone, não sem antes dizer que não gostaria de receber outras ligações daquela empresa e que não precisava de provedor nenhum, obrigada, explicando para os residentes da casa que era um golpe e que a moça queria vender um serviço desnecessário por conta da ignorância dos outros. Me disseram que já tinham passado os dados bancários da minha mãe para a Uol. Não pensei duas vezes e liguei para a Uol dizendo que assinaram um provedor em meu nome (ninguém precisa saber que ela é ela e eu sou eu se eles estão errados e minha mãe não pode ligar em horário comercial, né?) e que eu queria cancelar. Cancelado. Fim. Né?

Sim, se a Uol e a Terra não começassem a lançar débito automático na conta da minha mãe. Dez reais, trinta e cinco reais, cinquenta reais. Bloqueio no banco. Continua debitando. Na audiência de conciliação, a Terra disse que o problema é da minha mãe que não leu as letras pequenininhas. E a coitada nem estava em casa. A pergunta que fica: como será que Uol e Terra ficaram sabendo que meu telefone tinha acabado de ser instalado e minha internet não estava funcionando? Pois é...

O golpe do provedor

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Essa noite sonhei com uma utopia. O mundo que eu sonhei era realmente utópico, eu chamaria de o "mundo das soluções fáceis". Nesse mundo não havia crimes porque existiam muitos policiais nas ruas. A polícia era desmilitarizada e respeitada pela população. Ah, e respeitava a população com a consciência de que existiam para cuidar daquelas pessoas, não pra outra coisa. As pessoas podiam andar pelas ruas escuras sem medo porque só pela ciência de que existiam muitos policiais cuidando da população, a criminalidade já se acuava.

A solução que eles encontraram foi bem simples. Prisões, muitas prisões. Sistema de repressão total. Jogou papel de bala no chão, 'teje' preso por crime ambiental. E assim a galera foi aprendendo a agir de forma legal e responsável, a não causar danos aos outros. Não havia necessidade de escolas porque as pessoas aprendiam na televisão tudo o que elas precisavam. E se não aprendessem, eram presas e aprendiam essas coisas na prisão. Quem saía dos presídios recebia uma carteira de habilitação para convivência em sociedade, obtida por quem fosse aprovado por uma equipe científica respeitada no mundo todo. (Não preciso dizer que ninguém saía antes de conseguir a habilitação, né?)

Ao sair das penitenciárias, as pessoas eram recebidas de braços abertos pela sociedade, afinal, os regressos voltavam a fazer parte da sociedade civil, aquelas pessoas que têm direitos e tudo mais. Essas pessoas contavam como era a vida nas prisões e as histórias se espalhavam por toda a população, em forma de fábulas para aterrorizar as crianças, evitando que essas desobedecessem a lei. Nesse mundo, o Ministério Público, por ser o acusador dos processos criminais, era sempre pro societate, e os criminosos, a partir das investigações, já não faziam parte da sociedade, afinal, não eram sociáveis.

Descobriram, no mundo das soluções fáceis, que a criminalidade é resultado de uma doença psiquiátrica (ou de um demônio, pra quem tem religião), que só se cura através da tortura. Daí a faca na caveira, sabe. Pelo bem dessas pessoas e da sociedade da qual elas, enquanto doentes, não fazem parte, elas são submetidas a sessões diárias de espancamento, até que retornem à consicência social (ou que o demônio saia daquele corpo que não lhe pertence).

Esse é o "mundo das soluções fáceis", porque todas elas já existem. Mas não solucionam ***** nenhuma. É utopia acreditar que internar o menor que foi surpreendido com arma de uso restrito vai resolver alguma coisa quando três anos depois ele sair do CENSE. Ou que pelo menos nesses três anos a retirada de circulação do adolescente é uma quase-solução. Matem-no! E depois encham a boca para falar dos direitos fundamentais da Constituição blablabla. Muita retórica pra quem ainda acredita no Direito Penal do Inimigo. Essas pessoas me fazem acreditar que os Jogos Vorazes se aproximam.

Eu busco algo melhor do que o Direito Penal. E eu acredito que o ECA é algo melhor que o Código Penal porque nele existem medidas mais coerentes pra quem se diz contra a pena de morte. Porque eu não acredito que alguém esteja perdido. Ainda mais alguém que não viveu nem duas décadas. Perdidos são aqueles que não têm esperança. Não acreditar é o primeiro passo para não fazer nada. E eu não vou me juntar aos que não fazem. Eu não me conformo e não vou me conformar nunca com essa "solução" ridícula que temos para a insegurança pública. Eu busco algo melhor e vou buscar enquanto esse algo melhor não acontecer. Eu vou mudar a história com quem quiser se juntar a mim. Sigam-me os bons.

Mas mesmo assim uma coisa ainda não foi falada. vamos supor que nós sonhamos, ou inventamos, aquilo tudo - árvores, relva, sol, lua, estrelas e até Aslam. Vamos supor que sonhamos: ora, nesse caso, as coisas inventadas parecem um bocado mais importantes do que as coisas reais. Vamos supor então que esta fossa, este seu reino, seja o único mundo existente. Pois, para mim, o seu mundo não basta. E vale muito pouco. E o que estou dizendo é engraçado, se a gente pensar bem. Somos apenas uns bebezinhos brincando, se é que a senhora tem razão, dona. Mas quatro crianças brincando podem construir um mundo de brinquedo que dá de dez a zero no seu mundo real. Por isso é que prefiro o mundo de brinquedo. Estou do lado de Aslam, mesmo que não haja Aslam. Quero viver como um narniano, mesmo que Nárnia não exista. Assim, agradecendo sensibilizado a sua ceia, se estes dois cavalheiros e a jovem dama estão prontos, estamos de saída para os caminhos da escuridão, onde passaremos nossas vidas procurando o Mundo de Cima. Não que as nossas vidas devam ser muito longas, certo; mas o prejuízo é pequeno se o mundo existente é um lugar tão chato como a senhora diz. (C. S. Lewis, As Crônicas de Nárnia: A Cadeira de Prata)

Utopia

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Situações desesperadoras que pedem medidas desesperadas. Eu precisava viajar com minha família para ver o meu avô pela última vez, mas precisava voltar antes deles para trabalhar. Nós iríamos de carro, eu voltaria de avião. Por motivo até hoje desconhecido, eu não conseguia efetuar a compra online na Webjet e o preço Salvador-Curitiba nas férias de julho pra dali uma semana e meia era impossível nas outras companhias aéreas. Não que o preço da Webjet fosse bacana, só era menos impossível. Tive que comprar a passagem no balcão do aeroporto, em dinheiro.

Aconteceu que aquela foi mesmo a última vez que eu vi meu avô, e eu já estava em Salvador para pegar o avião no dia seguinte quando chegou a notícia. A primeira coisa que eu fiz: cancelar minha passagem no balcão da Webjet no aeroporto de Salvador e voltar pro interior com minha mãe. Ao explicar a situação, não recebi nem um sorriso de simpatia. Fui informada que não seria possível o reembolso ali, que eu teria que solicitar ao SAC, mas que, descontados cem reais pelo cancelamento, aquilo que eu paguei ficaria como crédito por até um ano.

Então, eu precisava ir ao Rio em janeiro. Que legal que pelo menos eu tinha esse crédito, né? Só que pra usar um crédito de uma passagem comprada no balcão da Webjet no aeroporto você precisa ir até o balcão com o localizador da passagem cancelada... e vai pagar os preços do balcão. Primeiro, você não tem muita ciência das opções, já que é a atendente quem realiza a operação no computador dela, cuja tela fica "de costas" pra você. Então, vai saber se aquele é o menor preço, né? Segundo, embora por telefone as atendentes cariocas da Webjet digam que os preços variam e pode ser que no aeroporto esteja mais barato, não está. Nunca está. E as promoções da internet nunca valem pra compra no balcão.

Daí que pra comprar passagens de ida e volta Curitiba-Rio com três meses de antecedência em dias promocionais eu gastaria quase o dobro do que paguei na passagem Salvador-Curitiba comprada em cima da hora pra viajar num sábado a tarde. E ainda tinham descontado cem reais. Se eu pudesse fazer a compra pela internet aproveitando os créditos que tinha, a Webjet ainda me deveria cem reais. É. E a raiva de ter que ir até o aeroporto de Curitiba que fica em São José e pegar três ônibus pra voltar pra casa sem a passagem?

Desisti desse negócio de reaproveitar os créditos e no dia 03 de março liguei para o SAC da Webjet e pedi o reembolso. Informei todos os dados pessoais e bancários e fui orientada a ligar novamente em cinco dias úteis para verificar se o reembolso fora aprovado. O prazo para o reembolso era de 40 dias... úteis. Em cinco dias eu liguei, fui atendida, tive que esperar na linha e, passado um certo tempo, a ligação caiu. Que coisa, não? Isso aconteceu mais duas vezes em que eu tentei me informar se o crédito fora aprovado, e as atendentes foram sempre muito delicadas e educadas, só que não.

No dia 09 de abril eu liguei de novo. Pedi informações sobre o reembolso e o atendente prontamente disse que ainda não tinha sido efetuado, mas que estava aprovado e eles ainda estavam dentro do prazo, que se encerraria na sexta-feira, dia 13. Aí eu aproveitava toda oportunidade para checar o saldo da conta e verificar que eles não depositaram. Nem no dia dez, onze, doze, treze, catorze, quinze, dezesseis... liguei. De fato, o prazo fora extrapolado. De fato, o reembolso estava aprovado. Não, a atendente não sabia porquê nem podia passar a linha para quem soubesse. Me passou o email da ouvidoria e só. A ouvidoria  deve ter só ouvidos e nenhuma boca, porque não me respondeu.

Eu já viajei três vezes de Webjet esse ano. A minha primeira viagem de avião foi com essa companhia. Eu já aguentei voo atrasado, comissária desrespeitosa, atendente que não sabe passar informação... já tive até a minha mala danificada e eu deixei passar. Agora já ultrapassou os limites da falta de respeito. Não voo mais de Webjet, nem por um real.

Ei, Webjet, devolve o meu dinheiro!

segunda-feira, 2 de abril de 2012

No dia da literatura infantil, uma homenagem e um desejo.

A um dos livros que marcaram a minha infância, a homenagem.
(Esse concorre juntinho com o Sitio, mas to economizando pro dia do Monteiro Lobato)


A todas as crianças do presente e do futuro, o desejo: que elas sempre tenham um livro amigo.

Carregando livros nas fraldas

quarta-feira, 28 de março de 2012

Olha o Switchfoot aqui traveiz, só que agora pra me fazer pagar língua. Sim, porque quem não se lembra pode ver quando Gone foi a música da semana (e desde então quase um ano se passou...) que eu dizia que não gostava muito deles. Agora eu tenho que dizer que nas últimas semanas não ouço outra coisa senão Switchfoot e MPB. Acho que foi depois que eu apaixonei (ui!)... caí de amores... ai, gente, como dizer que eu gosto muito dele sem me comprometer com meu digníssimo? pelo Jon Foreman, assistindo as apresentações extras que ele faz depois do show pra quem fica para os remanescentes. Pra quem não gosta de artista afetado, fica a dica de gente-boazice.

Mas Mess of Me não é exatamente a música de uma pessoa muito legal, não. É uma confissão de quem estragou a si mesmo. Quem já fez muito mal à sua própria pessoa e não aguenta mais isso. Não é o que a gente faz o tempo todo? Sentimentos, ideias, pensamentos, atitudes... coisas que a gente cultiva e que nos adoecem. E nós sabemos disso, mas continuamos. Eu sou a minha própria doença.

Chega, né? Não existe nenhuma necessidade pra continuar com essa palhaçada. Não existe. Sem desculpas. Nós sabemos que não é melhor desse jeito. Isso é só preguiça de mudar. Ou de admitir que você é sua própria doença. 

Clica que aumenta!
Eu baguncei com a minha vida
Eu quero recuperar o resto de mim
Eu baguncei com a minha vida
Agora eu quero passar o resto da minha vida VIVENDO.

E eu que sempre digo que ser feliz é pra quem quer... Que a gente só muda se quiser mudar. E que quando a    gente quer mesmo, a gente muda mesmo. Não vem com essa de já tentei e não consegui. Não conseguiu porque não tentou direito. Ou porque não queria tanto assim. Porque a gente tem mania de se agarrar com o que faz mal e com o que não presta. Mas eu escolho ser feliz hoje. O resto a gente joga fora.

Não gosto de incorporar vídeos, mas eu gostei taaanto desse!

Música da Semana: Mess of Me - Switchfoot

segunda-feira, 5 de março de 2012

Não, não é um post sobre a Iogurteira Top Therm, mas poderia ser. É um post sobre aquele assunto que pode ser o melhor do mundo, mas que as pessoas continuam fugindo. Ei, não pare de ler. Vamos conversar sobre política. Afinal, por que as pessoas normais querem mudar de assunto nessa hora como quem muda de canal quando começam a falar da incrível filmadora mais vendida do Brasil? Diferente dos incríveis cogumelos do sol - apesar de haver quem jure que funciona - a política vai mudar a sua vida. Eu sei disso porque ela já mudou e continua mudando a sua vida. Não adianta fugir do assunto. Não falar de política não muda o fato de que a sua vida depende disso, só o torna uma pessoa inconsciente sobre o que acontece ao seu redor.

Em algum momento da história a política, que era assunto que que interessava a quem era interessante, deixou de ser interesse da população. (Aliás, a expressão interesse político hoje tem caráter pejorativo, referindo-se à má vontade dos políticos para beneficiar a população). Todos aqueles direitos conquistados pelas mulheres, negros, estudantes e outras minorias pareciam nada pra uma geração anestesiada, incapaz de sentir os choques elétricos da vida implorando para que se levantassem. Estava muito bom assim. Cômodo. Tranquilo. Não havia mais nada a fazer. O mundo é ruim porque as pessoas são ruins. Lutar contra uma coisa ruim só vai servir pra deixar lugar para outra coisa ruim aparecer. É isso mesmo, produção? Vamos nos conformar? Vamos ficar calados? Vamos ficar cegos sem sequer querer saber o que está acontecendo?

Por isso que eu digo que eu não me conformo. Nunca. Não dá pra sentar e estudar e trabalhar e sair e voltar e assistir televisão e ler um livro sem poder pensar sobre o que tem acontecido. Sobre o que sempre acontece. Não dá pra não saber como o mundo funciona. Por isso às vezes eu me pergunto como é que vivem as pessoas que não são de Humanas e não entendem bulhufas da Constituição, da ciência política, da filosofia, da sociologia... (mas é claro que eu não estou dizendo que só entende disso quem é de Humanas, né, gente?) como vivem? Sério, como vocês vivem sem saber quantos impostos vocês pagam? Ou como funciona o orçamento público? Ou sem saber que a nosso sistema bicameralista é inadequado?

Vamos falar de coisa boa? Afinal, a política não vai deixar de ser uma nódoa na nossa roupa novinha em folha enquanto não começarmos a falar sobre isso. Você, que vive nesse planeta, tem que saber o que é esse negócio que a Dilma - que, por sinal, é a presidente dessa república, sabiam? - chamou de 'tsunami monetário' e o que o dólar, a crise na Europa e o Brasil têm em comum. Você, que vive nesse país, pelo amor de Deus, que esse ano temos eleições municipais! Você, por favor, tem que saber em quem você votou, tem que acompanhar quem está decidindo por você. Tem que saber sobre as reivindicações dos ciclistas nas grandes cidades do país - principalmente se você mora em uma metrópole. Você precisa ter uma opinião. Pra ter voz. Pra ser um cidadão, e não um idiota.

Vamos falar de coisa boa?