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quarta-feira, 3 de setembro de 2014





You can't deny the truth 'cause I am the living proof

Aibeleen já criou dezessete crianças. As mães brancas carregam os filhos na barriga, e depois entregam para uma criada negra cuidar enquanto são bebês. As empregadas trocam fraldas, acalmam cólicas, ensinam a usar o troninho, ensinam a falar. As crianças não sabem a diferença entre um adulto branco e um adulto negro. Mas aí a criança cresce, vai pra escola e se torna um adulto branco que acha que gente negra é menos gente que gente branca.
Quero gritar alto pra Nenezinha me ouvir que sujo não é uma cor, que doença não é a parte negra da cidade.

Took a lot to learn how to smile
Você pode ser a pessoa mais habilidosa, ainda assim, tem que dançar conforme a música. Se você faz a melhor torta de caramelo e retruca com a patroa branca, não tem emprego pra você. É por isso que a Minny acaba trabalhando para a única mulher na cidade desesperada o suficiente para contratá-la. Excluída da sociedade por ter a antipatia da presidente da Liga Jackson, a patroa Celia Foote não tem família, nem vizinhos, nem amigos, só tem uma empregada que conhece muito bem o que é exclusão.
... e então eu vejo. Vejo o lixo branco que ela era dez anos atrás. Era forte. Não aceitava desaforo de ninguém.

It's gonna be a long long journey
Skeeter é uma adulta branca. Ela não sabe o que é ser negro no Mississippi, mas sente saudades da empregada negra que a criou, e desapareceu de forma repentina. Ela se incomoda com o fato de que os negros precisam usar um banheiro diferente, e com essa história de que não se conversa com empregadas. Mas ela não se encaixa. Alta, quando deveria ser mignon. Cabelos que não ficam lisos de jeito nenhum. E não acredita que as coisas estão boas do jeito que estão. É por isso que ela resolve escrever um livro com relatos das empregadas negras de Jackson, Mississippi. Não que isso vá mudar a história da humanidade - o caminho é longo, mas é um primeiro passo.
Os brancos escrevem sobre a opinião dos negros desde o início dos tempos.

E o que mais?

A Resposta é o livro que eu indico para qualquer pessoa. A história se passa no sul dos Estados Unidos, nos anos 60, e é interessante ver como os movimentos sociais nas grandes cidades que viraram história foram recebidos e afetaram a vida de gente comum. A Resposta (The Help) é o nome do livro que Skeeter escreve, com a ajuda de Aibeleen, Minny e muitas outras, contando como é ser uma empregada doméstica em Jackson: quanto recebem, como são tratadas, os banheiros, os bebês, e tudo mais. Enquanto conta histórias do cotidiano sob o ponto de vista das três personagens principais, Kathryn Stocket fala sobre todo o processo do livro, desde o surgimento da ideia, a dificuldade pra conseguir empregadas que concordassem em contar sua história num tempo perigoso, a publicação do livro e, talvez a melhor parte, a reação das senhoras brancas ao livro publicado.

Kathryn Stockett optou por escrever de forma bem coloquial. Você consegue ouvir as personagens narrando aquelas situações, falando do jeito delas. Dizem (não vi) que no original ela escreve com "sotaque" do sul. Deve ser um barato. Esse estilo ajuda muito na construção das personagens. É como se elas respirassem o mesmo ar que você. Eu não quero dizer muito mais, para que a história não tenha menos impacto para quem for ler pela primeira vez.

Esse livro eu comprei como presente de aniversário há dois anos, pagando uma parte com um vale que ganhei de um querido amigo. Na época, já haviam lançado o filme, então a maioria dos exemplares tinha a capa amarela. Quando vi esse exemplar na Cultura, sabia que não poderia perder a oportunidade, pois logo não se encontraria mais essa edição nas livrarias.

Aliás, o filme que foi feito a partir deste livro, Histórias Cruzadas (2011) é um primor. Ele deixa de lado algumas cenas fortes do livro, mas que não interferem no impacto dessa trama. A trilha sonora também é ótima, com artistas dos anos 60 como Jimmy Carter e Bob Dylan. Os trechos de música citados acima são da canção inédita do filme The Living Proof (Mary J. Blige).

O livro foi lançado no Brasil pela Bertrand, do Grupo Record, e pode ser adquirido nas principais livrarias... mas com a capa do filme.

A Resposta (Kathryn Stockett)

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Churrasco Coisa que eu gosto demais é abrir a casa pros amigos. E casa cheia aqui no sul significa churrasco. A melhor parte é que eu passo menos tempo na cozinha e mais tempo no violão. Dá pra ficar melhor?

Primavera Pra quem gosta de viver coloridamente, a primavera é o melhor período do ano. Quente, mas não tanto. Chuva, mas não muita. Flores, flores, flores. Cores, cores, cores. Céu azul, azul, azul. Não dá pra ficar triste na primavera. (Exceto se você tiver alergia ao pólen, meus pêsames)

Aniversários Setembro é o mês em que a maioria das pessoas que eu conheço na vida fazem aniversário. Não, pera... É o mês com a maior concentração de aniversários de pessoas que eu conheço, incluindo uma mãe e dois irmãos <3

Curitiba Curitiba será minha por uma semana inteira. Ou eu serei dela. Tanto faz, eu nem me importo. Só sei que estarei lá, com o coração batendo forte de alegria.

Computador Da última vez que visitei meus pais, no penúltimo dia meu computador de repente não quis mais ligar. Deixei na UTI aos cuidados do meu técnico/pai, e o bonitinho já está em plena forma, melhor do que sempre, só esperando a mamãe buscar.

Fall season De um ano pra cá eu virei uma dessas pessoas viciadas em séries. Nesse mês estreiam as novas temporadas de várias que eu acompanho: Grey's Anatomy, The Big Bang Theory, The Good Wife, Once Upon a Time, Modern Family, Scandal, Resurrection, Castle... (sim, eu vejo muitas séries)

Feira do livro A 10ª Feira Internacional do Livro acontece sempre em Foz do Iguaçu e sempre em setembro. Nesse ano homenageia Ariano Suassuna, com 12 horas diárias de programação, além de livros em oferta e o marido abrindo a carteira com gosto #oremos

Bodas de papel Sim! Já faz UM ANO que a gente casou no civil, e não contou pra ninguém, pra não confundir as pessoas e evitar perguntas do tipo "ué, mas vcs não vão casar em janeiro? como assim casar agora? por quê? blablabla". Como comemoramos os aniversários? Em todas as datas, é claro!

Independência Já raiou a liberdade, já raiou a liberdade no horizonte do Brasil... Para a maioria das criança, 7 de setembro significa desfile. Para a maioria dos adultos, significa um feriado. Para mim, será um dia dedicado à reflexão sobre a liberdade. E pra você?

Livros novos Aproveitamos que a Amazon passou a vender livros físicos e... não compramos nada, porque a loja só aceita cartão de crédito como forma de pagamento :/ Mas a vontade era tanta de quebrar o jejum de OITO MESES SEM COMPRAR LIVROS (e a listinha só crescendo...), que fizemos o mesmo pedido em outra livraria. Devem estar chegando :)

Política Em plena campanha eleitoral, não dá pra escapar do assunto esse mês. Presidenciáveis, horário eleitoral gratuito, candidatos com nomes esdrúxulos, debates... a gente vê por aí (plim!). Mas você se lembra em quem votou nas últimas eleições? (Eu tenho uma coleção de decepções: Marina, Beto Richa, Ratinho...)

Em setembro tem...

quarta-feira, 30 de julho de 2014



It's close to midnight
Something evil's lurkin' in the dark

Por séculos, a Reserva de Caça Canterville carregou a reputação de mal-assombrada. Não por acaso, pois contava com um fantasma competente para operar suas fantasmices. Manchas de sangue no chão, o arrastar de correntes à meia-noite e a habilidade de incorporar diferentes personagens assustadores são habilidades que constam no currículo desse renomado fantasma.
Há três séculos ele é bem conhecido, na verdade desde 1584, e sempre aparece às vésperas da morte de algum membro da nossa família, disse Lorde Canterville.

They're out to get you
There's demons closing in on every side

Pouco convencida pelos avisos dos vizinhos, a família de um diplomata americano mudou-se para a residência onde certamente não receberiam visitas. Foi assim que o Sr. e a Sra Otis com seus filhos Washington, Virginia e os gêmeos se intrometeram nos assuntos assombrosos do magnífico fantasma. Não existe nada mais irritante para um fantasma do que alguém que não o leve a sério. No entanto, jamais passou pela cabeça oca do fantasma que um dia seria tratado com tamanho desrespeito, especialmente pelos gêmeos, que passaram a assombrá-lo dia e noite.
Depois disso, ficou extremamente doente por alguns dias, mal saindo do quarto, a não ser para retocar a mancha de sangue.

'Cause I can thrill you more
Than any ghoul would ever dare try

Embora o título remeta a uma história aterrorizante, o que vemos é uma comédia que rapidamente se converte em um desfecho emocionante, como um roteiro da Sessão da Tarde, mas de uma delicadeza profunda. Sofrendo mais do que em toda a sua morte, o fantasma de Canterville se vê desesperado, e é nesse momento que encontra a solução para o descanso eterno, na família que o atormentava. Um conto que, em poucas páginas, faz rir e faz chorar.
Você pode me ajudar. Pode me abrir os portais da morte, porque traz o amor sempre com você, e o amor é mais forte do que a morte.

E o que mais?
Através da história do fantasma, Oscar Wilde dá conta de criticar a aristocracia inglesa e a cultura americana ao mesmo tempo. A primeira, marcada pelos títulos hereditários e pela cultura do luxo. A segunda, mergulhada no consumo e no pragmatismo. Wilde narra, antes de tudo, o conflito cultural entre Inglaterra e Estados Unidos, através de personagens estereotipados e caricatos que dão o tom de comicidade e ironia que marcam a obra. 

A edição que eu foi publicada pelo selo Barba Negra da editora Leya, na coleção Eternamente Clássicos. Tem ilustrações de Wesley Rodrigues e tradução de Elisa Nazarian. O miolo foi impresso em papel lux cream, muito confortável para a leitura. A arte de capa e os desenhos remetem a um estilo sombrio, mas imprimem a exata comicidade ou dramaticidade da cena retratada.

Comprei esse livro em Novembro de 2012, para completar a coleção "Eternamente Clássicos", composta também dos títulos O Corcunda de Notredame, O Mágico de Oz e A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça. O Mágico de Oz foi difícil de conseguir, e eu já vi edições mais novas que utilizam material de qualidade inferior.A coleção contaria também com outros títulos como O Corvo e O Jardim Secreto, mas parece que foi abortada. Nem o selo Barba Negra existe mais.

O conto foi a primeira história publicada de Wilde, primeiro em uma revista, depois no livro Lord Arthur Saville's Crimes and other stories. A história foi adaptada 5 vezes em filme para telinha e telona, e uma animação está em fase de pré-produção. A obra também se converteu em música, ópera e musical, foi publicada como graphic novel, dramatizada no rádio e inspirou um filme em Bollywood.


Os trechos em negrito são da música Thriller, de Michael Jackson. Coloquei a música no repeat enquanto escrevia, e agora não consigo tirar o Mark Foffalo da cabeça, muito embora ele não tenha relamente nada a ver com o livro. Alguém mais não consegue ouvir Thriller sem pensar em De Repente 30? o/

A edição que eu tenho está esgotada, mas a obra é de domínio público. Você pode comprar em qualquer livraria, ou fazer o download no seu computador do original ou da versão para o espanhol.

O Fantasma de Canterville (Oscar Wilde)

sexta-feira, 11 de abril de 2014


Eu lembro da época que isso se chamava caderninho de respostas. Aí veio a internet e o caderninho de respostas virou meme. Aí meme virou outra coisa e o meme virou tag. Enfim, essa tag eu vi no Suspiscious Minds, da Roberta Faria, e resolvi fazer porque achei legal.

1) Áudio-livro ou livro?
Tenho trauma de áudio-livro. Meu pai tinha vários e ele colocava pra ouvir no carro, mesmo os livros chatos que só ele queria ouvir. Teve uma vez que ele fez isso numa viagem. Ui, que horror. Além do mais, com os livros eu imagino as vozes que eu quiser :)

2) Capa dura ou mole?
Capa dura ♥ Tem gente que acha que atrapalha pra ler e tal, e se não for bem feita, o livro vai acabar estragando, mesmo. Mas eu gosto da capa firme, especialmente quando eu estou lendo e andando na rua e segurando outras coisas e o vento tentando virar as páginas (eu vivo perigosamente). Além de ser super lindo, né?

3) Ficção ou não-ficção?
Estou numa fase de não-ficção. Sério. Acho que é abstinência da faculdade ou um chá de adultice que eu tomei sem perceber. Aliás, eu notei isso ontem quando fui escolher a próxima leitura e fiz questão de pegar um livro de ficção.

4) Fantasia ou vida real?
Fantasia! Uma coisa que eu gosto da ficção é que você não precisa seguir os padrões chatos da vida. Não precisa ser preciso. Você pode usar a imaginação à vontade, criar mundos, criar poderes, criar seres... Existem tantos mundos interessantes na ficção! Oz, Nárnia, Terra Média, País das Maravilhas... Quem nunca teve vontade de viajar pra um lugar desses?

5) Harry Potter ou Crepúsculo?
Harry Potter eu não li. Crepúsculo eu li. Não dá pra decidir só porque eu li um e não o outro.

6) E-book ou livro físico?
Livro físico. Muito embora eu esteja querendo demais comprar um e-reader, não acho que um livro digital substitui um livro na minha estante.

7) Comprar ou pegar emprestado?
Cadê a opção ganhar? Sou muito mão de vaca. Vivo emprestando e pegando livro emprestado. Biblioteca sempre foi uma zona de conforto pra mim. E não me incomodo querendo que os livros permaneçam novos pra sempre. Na real, é um desperdício comprar um livro que só vai ser usado uma vez. (Existe um princípio da economia pelo qual as coisas são mais baratas quanto mais elas são usadas. Um sapato de cinquenta reais usado duas vezes sai mais caro que um de cem reais usado cem vezes). Acho que o livro fica triste. E se sujar, se riscar, se fizer uma marquinha, é porque o livro tem história. E livro que tem história é livro feliz.

8) Livro único ou série?
Livro único. Tem muita série que é encheção de linguiça. Isso sem contar as séries que seguem o mesmo tema de outras séries. Um monte de livros com histórias similares só pra fazer dinheiro. Não, obrigada.

9) Livraria física ou online?
Livraria física pra passar o tempo, online pra fazer compras. Não consigo comprar nas livrarias físicas! Primeiro, porque me dá uma agonia pensar que talvez o livro esteja mais barato em outro lugar. Segundo, se eu vou comprar o livro novo, então eu quero que ele venha perfeito. Na livraria os livros geralmente ficam expostos, aí acabam ficando com marquinhas na capa, pra dizer o mínimo. Se eu quiser um livro com história, vou no sebo, ué.

10) Livro longo ou curto?
Longo. Mas não o longo pq ficou enchendo linguiça. O longo que tem história. Gosto de histórias com tramas bem desenvolvidas e cheias de reviravoltas, e pra isso tem que ter espaço. Eu lembro do primeiro "livro grande" que eu li, Se Houver Amanhã, do Sidney Sheldon. Foi indicação da minha professora de português da oitava série. Depois eu fui pra um colégio onde só podia emprestar um livro por semana, então eu pegava só os livros maiores, e trocava com uma amiga, pra durar a semana inteira. Dessa época me marcou O Memorial de Maria Moura.

11) Drama ou ação?
Depende. Da lua, do clima, do humor...

12) Ler no seu canto ou tomando sol?
Eu sou aquela pessoa que vai na praia com um livro na bolsa e não deixa a água chegar acima dos joelhos. Mas eu leio em qualquer canto. Um lugar preferido mesmo não é nem um canto meu nem um lugar ao sol. É o Bosque do Papa em Curitiba. No outono, melhor ainda.

13) Chocolate quente, café ou chá?
Chá. Eu sou uma pessoa que toma chá. Embora não tenha paciência pra fazer chá gelado (esquentar... depois esfriar...) e a minha atual morada não permita o consumo frequente de chá. Aliás, essa chuvinha de hoje é uma boa desculpa pra fazer um chá de hortelã...

14) Ler resenha ou decidir por si?
Eu decido pela sinopse. Ou pela capa. Ou porque alguém que eu confio me indicou. Quase não leio resenha, só as de algumas pessoas específicas. Tem muita resenha ruim por aí. A pessoa fica resumindo tudo o que acontece na história e acha que é uma resenha. Se é pra ler isso, eu vou ler o livro, que é mais legal.

[TAG] Isso ou Aquilo? - Livros

quarta-feira, 5 de março de 2014


Still looking for the blinding light
Uma cegueira branca. Repentinamente, uma pessoa deixa de enxergar. Seu mundo não se encheu de escuridão, mas de um clarão, como uma neblina espessa ou um refletor inquietante. Os personagens que não têm nome, um a um, descobrem que não enxergam mais, enquanto o leitor é apresentado a um mundo dominado pelo medo, pela dúvida e pela cegueira. 
O primeiro cego: pra mim é como se não houvesse noite.

None of us are bullet proof
Os primeiros cegos são postos em quarentena, em um prédio abandonado que antes fora um manicômio. Não demora muito para que as coisas fujam de controle e a construção volte à sua antiga função. Com mais doentes do que pode acomodar, pouca comida e higiene nenhuma, resta pouco lugar para a solidariedade. Não existe confiança cega. As medidas de emergência são inúteis. Os pesquisadores cegaram. Os cuidadores cegaram. Os governantes cegaram. Os guardas cegaram.
O médico: o mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos.

You're the vision that gives me sight
Uma única pessoa, a mulher do médico, misteriosamente conserva a sua visão durante todo o tempo. Fingindo estar cega, acompanha o marido até a quarentena, onde assiste o horror que aos demais é poupado. Ao mesmo tempo em que pode ajudar a um seleto grupo de pessoas anônimas, se desespera com a sua ocasional impotência. Ela tem medo que os outros descubram a sua visão e a tornem escrava. Quando não existem mais sãos para vigiar os cegos, a mulher do médico conduz o grupo pela cidade, em busca de abrigo e comida. É pelos seus olhos que observamos o caos e a crueza de um mundo sem aparências.
 A mulher do médico: o único milagre que podemos fazer seria o de continuar a viver.

E o que mais?
O Ensaio sobre a Cegueira é um livro sofrido sobre o sofrimento e a maldade humana. Nas palavras do autor, "Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo.". A escrita é fluida no estilo, como um senhor de idade a contar uma história para um desconhecido no ponto de ônibus. O conteúdo, por outro lado, é quase um vômito. Não tem nenhum pudor em expor toda a imundície que está no interior do homem.

É um livro muito sincero, que colocou muitos 'e se...' na minha cabeça. Comecei a imaginar todas as situações que o livro não expõe, mas que poderiam acontecer naquele cenário. E se uma grávida entrasse em trabalho de parto? E o que terá acontecido com os bebês? E se os cegos conseguissem, afinal, organizar um novo governo, como ele seria? E se essa epidemia desse lugar a outras epidemias? E se toda a comida já produzida acabasse completamente?

A edição da Companhia das Letras é aquela delicinha em papel polen soft <3. Quanto à arte da capa... não entendi o que significa. Se alguém quiser explicar nos comentários... A ortografia é a utilizada em Portugal, por desejo do autor. E o jeito de escrever é confuso até a 30ª página. Saramago não é fácil com os parágrafos e pontos finais. Também não usa travessão ou aspas, só uma letra maiúscula e uma vírgula separam uma fala da outra.

A capa do livro é branca, e ficou bastante suja, porque esse livro passeou bastante. (Eu tenho uma nova teoria de que os melhores livros são aqueles que foram vividos, que livro sujo é livro que foi lido, que as cicatrizes são sinal de que ele foi bem aproveitado e os rabiscos de lápis significam que alguém estava prestando mais atenção no conteúdo que na forma). O livro é meu nosso, mesmo. Foi presente de casamento (na nossa lista de presentes só tinha livros).

A história foi adaptada para o cinema em 2008, com Juliane Linda Moore e Mark Fofo Ruffalo interpretando o casal Médico e Mulher do Médico, e o brasileiro Fernando Meirelles na direção. Ficou tão legal que até o autor curtiu. Com uma fidelidade impressionante, tive a impressão de que a única adaptação no roteiro foi o corte de algumas cenas que tornariam a película muito extensa. (Mas eu senti falta das cenas do armazém do supermercado). O filme está disponível no Netflix, mas dublado em português :/

Os trechos em negrito são da música Blinding Light, de Switchfoot.

É uma leitura que exige estômago e, pra quem não leu Saramago, um pouco de força de vontade pra vencer as primeiras trinta páginas. Você pode adquirir o seu exemplar físico ou e-book na loja da editora Companhia das Letras ou nas principais livrarias.

Ensaio sobre a Cegueira (José Saramago)

terça-feira, 26 de março de 2013



Nosso verbo ser é uma identidade, mas sem projeto
Beatriz surgiu meio que sem querer, numa série de contos, insistindo em voltar e mostrar um pouco mais de si. A "assessora de textos" que é personagem de Um Erro Emocional nos mostra em pequenos excertos um pouco mais de sua personalidade. Vemos Beatriz trabalhando, amando, pensando no seu passado e no seu futuro, tomando decisões, acrescentando informações essenciais sobre a sua identidade como se não fossem importantes.
... porque agora eu sei mais sobre Beatriz e Donetti do que sabia ao inventá-los.

Se altera as letras e esconde o nome faz anagrama
O primeiro conto é narrado sob a perspectiva de Paulo Donetti, antes Antonio, um escritor de pouco sucesso, um tanto quanto rancoroso pelo sucesso dos menos talentosos. A convite de um desses escritores, Donetti vai para Curitiba falar em uma mesa redonda horrível e, no jantar que segue conhece Beatriz, que outrora fora Alice. A história acaba sem dizer muita coisa, e é no dia seguinte que se inicia Um Erro Emocional, originalmente um conto. Conhecemos um pouco mais de Beatriz em Aula de Reforço, que narra um dia comum com os clientes mais malucos que a gente encontra por aí.
E que tal o meu filho, não é inteligente?

O diminutivo é que aperta o mundo e deixa miúdo
O toque especial fica por conta da profissão: aquela identificação quando o cliente acha que o preço da revisão é muito caro, ou os textos bizarros e pedidos estranhos que aparecem. Qualquer um cujo trabalho envolva um cliente/usuário tem uma coleção de histórias bizarras, e com Beatriz não é diferente. Nos contos seguintes ela se depara com mais um monte de gente maluca, mas primeiro voltamos ao Donetti em A Viagem, que ouve uma história machadiana no ônibus, a caminho de uma universidade do interior, a qual decide utilizar na palestra de logo mais. Depois, Beatriz ainda encontra dois clientes muito estranhos, que a colocam em situações inusitadas em Beatriz e a velha senhora e Um dia ruim. Pagando bem...
Uma mulher deve saber fazer seu caminho...

No entanto falta ter um sujeito pra ter afeto
O romance está presente, ou quase, em Amor e Conveniência e O Homem Tatuado. Depois de algumas experiências desastradas, Beatriz tem a oportunidade de experimentar a conveniência de um relacionamento estável, onde tudo é combinadinho. Benefícios para todas as partes. Boa companhia, boa vida, bom vinho. Às vezes o romance estraga as coisas, não? Mas é nos braços do homem tatuado que ela vive uma paixão fulminante e inesperada - o romance quente que toda mulher procura em algum momento da vida. São os únicos contos inéditos do livro.
... ao que Beatriz, gentil, respondeu com um beijo na boca dizendo em seguida, rindo: Mas não é melhor fazer do que escrever?


E o quê mais?
Não dá pra dizer como é Cristóvão Tezza. Veja bem, ele é um escritor de romances, e eu só li seus contos. Por outro lado, a auto-crítica à classe literária e a cara de pau exposta no prólogo dão um gostinho de alguém que vale a pena ser lido. Os contos tem uma escrita bem marcada, compassada, que demonstram bem o ritmo, o tom e a temperatura da história (nesse caso, mudando o tempo todo, conforme mudam as histórias).

A edição da Record combina com os outros livros do autor. (como eu amo edições combinadinhas! não canso de dizer isso!) O exemplar que eu li foi emprestado da biblioteca da UFPR, em muito bom estado. O livro é levinho (cento e quarenta e quatro páginas. Nem me lembrava da última vez que tinha pegado um livro tão pequeno), desses que dá para ler até andando. As páginas são de papel off-white 90g. O texto tem tipografia serifada, em tamanho confortável.

Beatriz foi lançado depois de Um Erro Emocional (2010), e, pelo que eu vi, quem já tinha lido o romance não gostou dos contos. Confesso que, quando tirei da prateleira, não tinha a menor noção do que estava levando para casa. Fiquei feliz em descobrir que inverti a ordem, porque assim talvez eu goste ainda mais do romance. Talvez seja como ver os extras do DVD antes do filme, mas isso não estraga tudo, né?

A música citada na resenha é Gramática, do grupo Palavra Cantada.

Comprei o meu (sim, comprei) na Nobel (a maiorzinha de Foz, cujo site só não é mais indecente que o da Editora Rocco), mas o livro está disponível também nas principais livrarias, como Travessa Cultura Saraiva e até no Submarino.

Beatriz (Cristóvão Tezza)

sexta-feira, 22 de março de 2013

1) Dividi minhas férias em três períodos: passeios, descanso e casa. Não me arrependo.

2) Ontem não fiz nada além de ler e dormir. Melhor que isso, só se estivesse torrando em alguma praia...

3) Primeiro voo com a Gol. Primeiro voo atrasado. Azul, eu te amo ;*

4) Trouxe os livros como bagagem de mão por causa do peso. Acho que vou precisar de mais...

5) Lugares para visitar onde não pode tirar foto: perde 60% da graça :( (Museu Imperial, Biblioteca Nacional)

6) Lugares para visitar onde tem que agendar a visita com antecedência: perde 90% da graça :( (ABL)

7) Viajar de São Gonçalo para Jacarepaguá com mala de 15kg + 4kg de queijo de Minas + 6kg de livros + quatro bolsas com coisas aleatórias equivale a uma semana de academia. Tenho certeza disso!

8) Tenho paciência infinita com crianças. Especialmente as inteligentes que gostam de livrinhos e quebra-cabeças.

9) Amo mimar a Maria Nina!

10) Quando comprar um presente pra alguém, não embrulhe e não diga que é presente. Você captará uma reação sincera que dirá se a pessoa merece/quer aquele presente.

11) Só comprei presentes de comer pra levar pra casa. Esses não dá pra deixar guardado, né?

12) To com saudade de cozinhar. Vou bater um bolo. Alguém quer?

Diário de Viagem #2

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Ciranda de Pedra (Lygia Fagundes Telles)

Redescobrir o sal que está na própria pele
Quanto mais difícil, mais necessário é manter as aparências. Ainda mais depois do escândalo da separação, da loucura, do adultério. A menina Virginia é a única das irmãs que mora com a mãe e o "tio Daniel", médico por quem Laura se apaixonara. Além de viver desprovida da abastança das irmãs, a caçula convive com a doença da mãe, sempre à espera de um lampejo de lucidez. A história é narrada do ponto de vista dela, mas em terceira pessoa. Pai distante, mãe louca, irmãs indiferentes - Virginia quer ser próxima de alguém, quer fazer parte, mas está envolvida em contextos heterogêneos. 
Virginia: Não me pareço com ninguém.

Pelo simples ato de um mergulho ao desconhecido mundo que é o coração
Quando finalmente descobre que não pertence a lugar nenhum, Virginia pede ao pai para estudar em regime de internato. A história, então, avança para o dia em que retorna à casa do pai. Está tudo muito diferente, e ao mesmo tempo muito igual. Sabe, quando você retorna ao lugar onde passou a infância? Parece que não mudou nada, e, ainda assim, mudou tanta coisa... Virginia mudou. Agora eles lhe oferecem um lugar na roda, mas ela não tem certeza se ainda quer girar. Os segredos que antes ela ansiava saber tornam-se verdades pesadas demais para ela. A gente vai pegando uma afeição por essa menina, quer chamar pra tomar um café, dar um conselho. É uma história muito preocupante. Uma menina muito preocupante, mas isso não é o pior. Acontece que ela é muito doce, também, e dá cada susto na gente...
Otávia: E então, já descobriu muita coisa?

Renascer da própria força, própria luz e fé
O final pode ser feliz ou triste, depende do ponto de vista. Eu ainda não escolhi o meu. Virginia finalmente encontrou seu lugar no mundo. Os personagens são fieis até o fim em suas características principais: Conrado é um banana; Afonso é um babaca; Bruna é uma hipócrita; Otávia é louca como a mãe; Leticia é fraca - aquele tipo de gente fraca que finge que é forte, mas toda a sua força vem da fraqueza de não perdoar o passado. Eles são um espelho onde dá pra enxergar um pouquinho de cada pessoa. Esses livros que jogam a verdade na cara da gente são assustadores.
Conrado: Começa hoje a vida que te resta.

E o quê mais?
A escrita da Lygia é delicinha! Se fosse um som, seria aquela voz macia, melodiosa, ritmada, cheia de calor e emoção. Ciranda de Pedra é o primeiro romance da autora, já reconhecida pelos seus contos. A impressão é que ela prendeu a respiração por tempo suficiente para ter fôlego para um mergulho profundo logo na primeira vez. Para Carlos Drummond de Andrade, é "um livro perturbador, que nos prende e nos assusta". Concordo. Li no começo do ano e olha, quando passo por ele na estante, ainda me surpreendo prendendo o fôlego, como num susto. (Verdade!)

A edição da Companhia das Letras é linda, linda, linda. Essa coleção da Lygia tem capas tão lindas que dá vontade de pendurar na parede, porque são, de fato, detalhes de obras de arte. O texto foi impresso em papel Pólen Bold (aquele amarelinho, com textura gostosa). A fonte é serifada, com tamanho bom para os ceguetas, sem ser exagerado.

Esse exemplar faz parte da minha biblioteca. Comprei na Livraria Cultura do Shopping Curitiba em outubro de 2012, num esforço para aumentar a minha seção de Literatura Nacional. Como eu sou meio traumatizada com os autores mais recentes (ai, gente, desculpa, talvez eu precise de terapia, mesmo, fazer o quê?), compro esses autores lindos e mortos, que não enchem o saco se eu não gostar.

Ciranda de Pedra foi adaptado duas vezes para a televisão pela Rede Globo (1981 e 2008). Eu não acompanhei, mas acompanhei algumas partes e, depois que li, fui no site da telenovela e... não tem nada, nada a ver. Como se pegasse as duas primeiras páginas do livro e a partir daí seguisse com outra história. Mas a trilha sonora é ótima :) Os trechos da resenha são da música de abertura, Redescobrir, do Gonzaguinha, que foi interpretada pela Elis Regina.

Por ser uma leitura densa, não recomendo para leitores iniciantes. (Não acho que quem está começando a tomar gosto pela leitura tem que ler qualquer clássico, a menos que realmente queira. Os clássicos geralmente são pesados e muitas vezes são chatos, mesmo.).

Disponível nas principais livrarias (físico e e-book): Travessa Cultura Saraiva Loja da Companhia

Gostaram do novo modelo de resenha? Aceito sugestões! :)

Ciranda de Pedra (Lygia Fagundes Telles)

sábado, 19 de janeiro de 2013

Eu não resisto a uma coleção bonitinha. Acho o máximo quando a editora tem o bom gosto de formatar todos os livros de um mesmo autor (ou não! qualquer desculpa pra fazer combinadinho já me deixa feliz!) num mesmo estilo. As capas combinando na estante... não fica lindo? Não teria comprado John Grisham com as capas antigas. Aliás, eu deixei de comprar um livro dele esse mês porque ainda não tinha com a capa nova. Mas a gente quer falar da história, né?



"Os Litigantes" é uma história de anti-heróis. Um advogado alcoolista que anuncia divórcio rapidinho e baratinho em cartelas de bingo. Um advogado veterano que passou a vida inteira procurando clientes em batida de carro e ainda não conseguiu dinheiro pra se aposentar ou pra se divorciar da mulher. Um advogado em uma firma gigante, com um salário enorme e um trabalho que é um saco, que resolve largar o emprego e tomar um porre. Estes são os protagonistas de Grisham: os fracassados.

Como se fosse uma versão loser desse cara, sabe?

No início eu fiquei com raiva, principalmente do Wally (o bêbado) e do Oscar (o velho). Eles são exatamente o tipo de advogado do qual eu tenho nojo. Aquela escória que faz qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, pra arrumar um cliente qualquer. Enquanto Oscar só quer se aposentar ou morrer, o que acontecer primeiro, Wally ainda está em busca do golpe perfeito. Algum caso contra alguma empresa grande para conseguir uma indenização vultuosa e ganhar uns honorários bem gordos.

David (aquele que tomou um porre) é um tipo mais nobre e foi por ele que eu levei o livro até o fim. Veja só, ele estava naquela firma enorme, com milhares de advogados, ganhando quinhentos dólares por hora pra lidar com subscrição de títulos com ênfase nos spreads do after-market de segundo e terceiro níveis, principalmente para multinacionais que prederem não pagar impostos em qualquer lugar do mundo. Cinco anos sem nunca pisar num tribunal, só criando papelada. Trabalhando para empresas, e não para pessoas. Eu sei que há quem goste disso (e eu fico feliz por isso - ninguém pode me obrigar a fazer esse tipo de trabalho enquanto houver quem goste dessas coisas), mas eu prefiro trabalhar resolvendo os problemas das pessoas, e o David também.

Aí tem a capa do livro, com esses comprimidos. Isso porque a história se desenvolve quando, ao mesmo tempo em que David toma um porre, chuta o balde na firma e vai parar da F & F, Wally Figg arruma um caso contra uma gigante farmacêutica, pedindo indenização pela morte de um cliente que teria sido causada por um remédio que fazia mais mal do que bem. Foi um fervo no país inteiro. Ele bateu em cada porta prometendo um milhão de dólares para quem aceitasse entrar na ação coletiva. Entrou com a ação no tribunal federal sem a mínima experiência com um juri (nos Estados Unidos, quase tudo vai a juri)... 

Se não gosta de pessoas de terno, esse livro não faz o seu tipo.

Talvez eu esteja entediando vocês com essa história e eu realmente acho que esse livro deve ser muito entediante para quem não consegue ao menos ver um episódio de Law and Order. O fato é que eles arranjam muita corda pra se enforcar, e quando você se dá conta, o livro que estava um saco com esse tipo de gente que você despreza (no caso, 'você' seria eu mesma) conseguiu prender a sua atenção porque você quer saber se vai dar certo, se eles vão ganhar a ação, se vão se dar mal, se o David vai se corromper... Quando você se dá conta, está cativada pela escória do mundo jurídico (os advogados porta de cadeia ou, no caso, caçadores de ambulância, sem o menor senso de ética), não porque concorda com o que eles fazem, mas porque se importa com o que eles são (ignorem o fato de que eles não existem) e quer saber como eles vão sair dessa, e se vão se emendar depois dessa.

Dei três estrelas porque o livro é realmente bom. Não é muito bom, nem ótimo, mas é bom.Não é bom por inteiro, mas vai ficando bom com o passar do tempo. Entre os leitores do Skoob, tem avaliações de três a cinco estrelas. Ninguém abandonou. Se você gosta de assistir Law and Order e de filmes com cenas de tribunal, se já é fã de John Grisham, vai fundo ;)

Extras

Comprei o livro em... acabei de perceber que eu não anotei. Eu sempre anoto a data na sobrecapa. (Aproximadamente uma hora). Lembrei. Foi numa promoção de 3 por 30 do Submarino. Chegou em setembro, pouco antes de começar a grande ressaca literária de 2012 (que, pelo visto, assolou boa parte da população da minha timeline). Eu tinha lido Pequena Abelha e parecia que nada na minha estante era bom pra ler em seguida. Peguei um Sidney Sheldon na biblioteca que resolveu meu problema. Acontece que, na sequência eu li Em Chamas e A Esperança. O que aconteceu em seguida não foi uma ressaca literária, foi uma fossa. Eu chafurdei no luto pelos personagens queridos. Mas não vamos falar disso agora. Daí que eu precisava de alguma coisa pra sair dessa situação, e como Sidney Sheldon funcionou na última vez, achei que John Grisham daria certo.

Enfim, no Brasil, John Grisham é sinônimo de Rocco. Eu já falei aqui que as edições da Rocco são muito porquinhas, especialmente quando você pensa no preço que eles cobram. Eu pago caro com gosto se o trabalho for lindo e maravilhoso. Não é o caso dessa edição, mas dá pro gasto. É bonitinha. O papel é branco #chora, mas a capa é bonitinha, a fonte e o tamanho da letra são confortáveis, e eu achei bonitinho como colocaram o nome do autor e a paginação nas folhas. Também gosto das orelhas bem largas.

O livro é o lançamento mais recente (e mais barato) do autor no Brasil, do original The Litigators. Escrito em 2011, ainda não tem adaptação televisiva ou cinematográfica. Depois desse, Grisham já publicou mais dois ainda não lançados no Brasil. Alguém segura esse homem! Ele é o sexto mais lido nos Estados Unidos (dizem) e dos 28 livros lançados saíram 19 adaptações para TV ou cinema.

Como é lançamento de 2012 da Rocco, tem exemplares a rodo e volta e meia está em promoção. Podem olhar na Travessa, Submarino, Cultura ou Saraiva, ou na livraria de sua preferência. Só não olhem no site da editora, não presta. (Que vergonha, Rocco! Que site horroroso!). Mais informações no Skoob ou no site do John Grisham (em inglês).

Os Litigantes (John Grisham)

domingo, 30 de setembro de 2012

Ler é uma das dez melhores coisas do mundo, numa lista de 10+ que provavelmente tem 42 itens. Toda aquela história de que a literatura transforma, liberta, ensina, cultiva, cativa... é tudo verdade. Apesar disso, parece ser bem difícil ensinar uma pessoa a ler. Quero dizer, não faço ideia sobre o processo de alfabetização de uma pessoa, mas cultivar o hábito da leitura em alguém não é fácil. E a leitura é dessas coisas preciosas que não dá pra guardar pra si. Eu gosto de dar livros de presente pra todo mundo, mas uma pessoa tem sido o meu projeto especial nesses últimos anos.


Existe livro pra todo mundo. Vivam com isso. Eu sei de muita gente que não gosta de ler porque seu 'incentivo literário' foi o livro errado. Não dá pra apresentar o mundo dos livros com Sidney Sheldon pra quem muda o canal toda vez que começa uma cena de beijo na novela. Também não dá pra passar Douglas Adams pra sua tia-avó que não usa o computador porque tem medo de estragar. Às vezes não é fácil acertar. Com o meu, hum... "projeto", eu comecei pelos policiais. Agatha, Grisham, até Don Brown. Não rolou. Comprei o Guia do Mochileiro das Galáxias e ele leu todos. 

Tem que começar pegando leve. Ninguém começa a ler com Ulysses. (Eu ainda não criei coragem pra encarar). Muita metáfora, muita descrição, linguagem rebuscada (ou linguagem muito informal, dependendo da pessoa), livros que demoram pra engatar devem aguardar a maturidade do leitor. Quem vai começar, começa com livros mais curtos, ou livros cuja história flui rapidamente. Se ele tiver que ler até a página cem pra gostar, ele não vai nem chegar lá.

Os primeiros livros (os rejeitados) vieram da biblioteca pública. Os outros foram emprestados pela minha biblioteca. Quando a chama literária começa a derreter o coração do ex-não-leitor (tão poético...), está na hora de dar um passo adiante e ajudá-lo a começar a sua própria biblioteca. Afinal, todo leitor precisa de livros. A essa altura, ele já falava de livros que ele gostaria de ler, que estava pensando em pedir emprestado para outros colegas. Como incentivo pouco é bobagem, comprei logo o box da série inteira de presente de aniversário.

É claro que pra ficar feliz por ganhar livros no aniversário tem que ter alguma intimidade com os livros, mas você só tem certeza de que o processo está completo quando o seu ex-não-leitor faz uma conta no Skoob. Não, não se trata apenas de abrir uma conta. Tem muita gente que tem conta no Skoob e não lê coisa nenhuma. O que aquece o coração da gente é quando você fala de um site onde você pode cadastrar os livros que você já leu, avaliar, marcar os que você tem, gravar o seu histórico de leitura... e os olhos da pessoa brilham. Aí está a paixão. Este é o amor pela literatura, pelo qual um alfabetizado se transforma em um leitor. Nasceeeeeeeeu!

#coraçãoquentinhodeorgulho

O Nascimento de um Leitor

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Emmi e Leo,

Eu recebi os emails de vocês por acaso. Acho que vocês não podem reclamar, já que o Daniel Glattauer jogou a coisa toda no ventilador, né? Aí aconteceu que, por conta de uma hóspede que deveria receber esses emails por correspondência (nem me perguntem porque as pessoas mandam correspondência dos outros por correspondência), as suas correspondências vieram parar em minhas mãos. 

Sinto muito, a curiosidade foi mais forte. Agora, tenho que fazer algumas considerações, se é que me permitem. Aliás, se não permitem, eu faço do mesmo jeito. Não precisa nem ler.

1) Eu me identifiquei com a Emmi. E agora? Sério, eu fiquei na maior crise porque... poxa, acho que eu jamais faria o que você fez, Emmi. Mas também não a condeno. Acho que você é parecida comigo, sempre tentando consertar as pessoas e sempre achando errado que elas estejam infelizes e não façam nada a respeito. Mas jamais faria o que você fez com o coitado do seu marido. Até porque, eu não me casaria por dó Oo.

2) O Leo é meio devagar, cheio de regrinhas, de mimimi. Parece uma mocinha de TPM, cheio de não-me-toques. Credo. Aqueles ataques de depressão dele... tenho preguiça de gente deprimida.

3) Eu gostei do modo como a história aconteceu. Como quem vai entrando no mar devagarinho e quando vê já está até o pescoço. O formato de emails também ajudou, tornando tudo mais rápido. Só gostaria que os emails tivessem sido impressos com data e hora. Esse negócio de vinte minutos depois, dois dias depois, não ajuda muito quando a gente quer saber há quanto tempo aconteceu um fato de trinta páginas atrás. Não rola ficar somando, né?

4) QUEM QUER SABER DO VENTO NORTE? Sério, que coisa mais sem graça. "O vento norte fica na minha cabeça e eu não consigo dormir". Emmi, quantos anos você tem? O Minuano em A Casa das Sete Mulheres é um vento muito mais interessante. Pelo menos ele participa da história. Esse vento norte aí só... existe u.u

5) Emmi, por que você casou com o... qual é o nome dele mesmo? Bem, com o seu marido. O pior é que dá dó do sujeito, porque enquanto você fica de tralalá com o Leo o senhor seu marido fica tendo ataques do coração por sua causa. Minha filha, você, definitivamente, não pode ter os dois. Pare de magoar o seu marido ou largue-o de vez.

6) Dá pra entender porque tanta gente ficou doida pela história. É apaixonante, é empolgante. Os emails de vocês são interessantes, e a inclusão dos emails mais sem graça só serviu pra deixar as coisas mais realistas. Eu li a história toda em um dia. Poxa, eu levei um tombo no meio da rua porque não queria parar de ler.

7) A história não é ruim, mas não dá muito pano pra manga. É uma história simples pra se ler naquele dia em que se está com preguiça de se ler algo sério. Quem vê mais do que isso deve ser do tipo que tem Comer, Rezar, Amar como Bíblia. É só uma história. Não é a pior, mas também não é a melhor história. É coerente com aquilo que poderia ser.

Enfim, eu já fiquei sabendo que o Leo voltou de Boston e que vocês continuam se correspondendo. Já que a Emmi adora se meter na vida dos outros, me sinto no direito de fazer o mesmo e dizer pra vocês pararem com a palhaçada. Vão viver suas vidas.

Francamente,


Annie Adelinne
http://www.comtudooquesou.com
http://www.verbetelegal.com

Bicando no booktour alheio: @mor (Daniel Glattauer)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Spoilers. O grande problema de quem lê ou indica ou fala sobre Grande Sertão: Veredas são os spoilers. Minto. É o spoiler. Não é um spoiler difícil de descobrir. Talvez, na época em que foi escrito, tenha sido algo super original, mas eu consigo me lembrar de algumas histórias com o mesmo mistério. É até provável que algumas delas tenham se inspirado na história de Guimarães Rosa. 


Se você é daqueles que não gostam de spoilers,
então não procure chifres em cabeça de cavalo.
Agora, se você está louco pra saber que spoiler é esse,
com imaginação e curiosidade os unicórnios aparecem!
Depois não digam que não avisei.


Eu não ligo para spoiler. Nem por isso vou entregar spoiler algum, fiquem tranquilos. Acho mesmo que o que importa mais é como a história é contada do que o que acontece nessa história. Porque até uma ida ao supermercado pode ficar super interessante se for contada por aquele tio super engraçado, enquanto uma super aventura pode se tornar um tédio na boca do metido do namorado da sua irmã. (Não estou falando de nenhum dos dois, é só um exemplo u.u).

Meu primeiro contato com o grande sertão foi em uma leitura realizada como preparação para um evento da faculdade que tinha como texto-base o trecho do julgamento de Zé Bebelo. Naquele pré-evento, um rapaz muito empolgado lia trechos que ele julgava importantes para a nossa compreensão da história, explicando as passagens para então chegar no julgamento. Não sei se foi o brilho nos olhos daquele moço apaixonado por este livro, se foi o encanto da leitura em voz alta, a linguagem do Rosa... só sei que saí daquela sala direto para a biblioteca.

A escrita é linda. Não por poesia rebuscada, por lirismos enfeitados, mas justamente pela falta de enfeites. É natural. E é linda. O livro todo é uma narração de uma conversa entre Riobaldo e um interlocutor que, por um acaso, durante alguns (vários) dias, fui eu. Conversa é modo de dizer. Ele falou, eu escutei, assenti, sorri e chorei. Marquei suas palavras para reproduzi-las mais tarde. Mas não disse nada. Não cabia.

Mas não tem só Riobaldo nessa história, é claro. É a história da vida dele, sim, mas ele é um excelente contador de histórias. Por mais que vá e volte no tempo em suas narrativas, ele sabe como prender a atenção de alguém. Não só Riobaldo, mas Diadorim, Zé Bebelo, Hermógenes, Joca Ramiro e até alguns personagens que poderiam passar despercebidos por olhos menos atentos ou menos curiosos como Nhorinhá, Compadre Quelemem, Fafafa... A obra é cheia de personagens porque retrata a vida e é cheia de vida. E a vida é assim, cheia de gente.

O cenário disso tudo é o sertão de Minas Gerais e Bahia, mas é, principalmente, dentro de Riobaldo. Não que seja daqueles romances em que a personagem principal passa o tempo todo em reflexões interiores. Não. Riobaldo pensa na vida enquanto vive, e conta a vida para vivê-la. E por ser a vida, o sertão pode estar dentro de qualquer um, seja você homem ou mulher, alto ou baixo, gordo ou magro. As dúvidas e as certezas, as virtudes e as fraquezas que pertencem a todos estão fincadas nessas linhas, muitas linhas, que formam veredas no sertão. O sertão está em toda parte. Talvez por isso é que viver é muito perigoso.

Extras

A edição que eu li veio da Biblioteca de Ciências Humanas e Educação da UFPR. É a 10ª edição da Editora José Olympio, que hoje faz parte do Grupo Editorial Record. A edição bem antiga aparentemente preserva as características da edição original. Conta, inclusive, com o recado do autor na última página.

Como já foi muito manuseado, assim como os outros exemplares da biblioteca (tem vários!), o livro já passou por uma reforma e, por isso, não possui a capa original, com desenhos do artista paranaense Poty Lazarotto. (De férias em Curitiba? Tem uma exposição sobre ele no Museu Oscar Niemeyer).

Por ser uma edição bem antiga, não dá pra contar com muito conforto além das páginas levemente amareladas. O papel tem boa gramatura, não fica grudando um no outro, nem aparecendo a tinta do outro lado, mas as margens das páginas são exploradas ao máximo, assim como o espaçamento entre as linhas.

Grande Sertão: Veredas foi traduzido em vários idiomas e se transformou em The Devil to Pay in the Backlands, Le Diable Dans la Rue, au Milieu du Tourbillon, Wilkie Pustkowie, Gran Sertón: Veredas, Diepe Wildernis: de wegen, além da tradução italiana que manteve o título brasileiro (há um fac-símile da página inicial da tradução italiana na edição que eu encontrei na biblioteca).

No Brasil, a obra recebeu adaptações em filme (1965), em minissérie para a Rede Globo (1985) e em ópera no espetáculo Sertão Sertões, uma Cantata Cênica (2001). Os livros escritos sobre este livro são tantos que eu nem me arrisco a listar. O livro é o único brasileiro a constar da lista dos 100 melhores livros de todos os tempos do The Guardian.


Hoje a obra faz parte do catálogo da Nova Fronteira, que tem também uma edição de bolso, praticamente a metade do preço, naquela coleção Biblioteca do Estudante, que lança títulos que costumam fazer parte do conteúdo dos vestibulares das principais universidades do país. Apaixonante mesmo foi a edição limitada lançada pela mesma editora em comemoração aos 50 anos da obra, que hoje é vendida por meio milhar de dilmas no Estante Virtual...

Grande Sertão: Veredas (João Guimarães Rosa)

terça-feira, 26 de junho de 2012

Wildflowers é diferente de todos os livros da série por um motivo: a protagonista já é casada. Ela tem um marido que é um fofo, mas que não para em casa. Genevieve aparece pela primeira vez em Sunsets, o quarto livro da série - ela é vizinha (e locadora) de Alissa, Shally, Brad e Jakecob. Depois ela desaparece e surge em Glenbrooke no último livro da série, dizendo que seu sonho sempre foi se mudar pra uma cidade pequenininha e montar um café charmoso. Tá, né?

Então, Genevieve é uma mulher que quer se sentir realizada. Quem não quer, né? E eu vivo em dúvida se o que ela entende por realização é demais ou não. Se ela é ingrata pelo que tem ou se realmente merece o que não tem. E o que ela não tem? Uma vida profissional - a típica casei-cedo-e-me-dediquei-só-à-família - e um marido dentro de casa - Steven é piloto de avião.

Na maior parte do tempo ela me pareceu mal-agradecida. Sabe quando várias coisas boas estão acontecendo na vida da pessoa, mas ela não consegue enxergar? Ou quando você tem uma coisa maravilhosa na sua vida, mas se acostuma com ela e esquece o quão maravilhoso é ter isso?

Essa é a mágica dos livros da série Glenbrooke. As personagens, apesar de suas peculiaridades, têm traços muito reais e muito diversos. Acho que não conheço alguém que não se pareça com uma dessas oito mulheres.

Pra quem conheceu a Robin - a autora - quando adolescente, e acompanhou Cris, Katie e a galera crescendo junto com a gente, encontrar essas outras amigas, que são mulheres maduras, profissionais, com problemas de gente grande (como são os nossos problemas agora) é como se a Robin estivesse um pouco conectada conosco, como se ela conhecesse tão bem suas leitoras que conseguisse criar pelo menos uma personagem que fosse, em muitas maneiras, parecida com cada uma delas. Por isso a gente te ama, Robin! ♥

Extras

O exemplar que eu li pertence à Cintia, que me emprestou quando fomos pro Maranhão. É um exemplar em paperback, da quarta edição, uma edição mais nova - porém menos bonita - do Clouds que eu tenho aqui (e que é da Deise). O papel é aquele típico da Multnomah, suavemente amarelado, com textura semelhante a papel de jornal. A tipografia é serifada, bem classuda.

Os livros da Série Glenbrooke vêm com um mapa da cidade no início, que só deve ser observado se você não tiver problemas com spoilers. Tem também o versículo que inspirou o título do livro. Ao final, a receita de alguma guloseima citada no livro e uma carta da Robin.

Wildflowers é o último livro da Série Glenbrooke. Os outros livros são Secrets, Whispers, Echoes, Sunsets, Clouds, Waterfalls e Woodlands. Esses livros não foram lançados no Brasil. Somente é possível adquiri-los em inglês, e você pode fazê-lo pela Livraria Cultura, no Better World Books ou pelo site da autora.

Ah, tem outra resenha de Wildflowers no Free to be me ;) Vale a pena ler!

Wildflowers - Robin Jones Gunn

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Existem coisas muito legais, mas que comprometem muito a gente. Desafio literário, clube de leitura, faculdade, livro viajante... junta tudo isso e você não consegue mais ler o que você quer. Esse mês de maio eu dei sorte, porque todas as leituras que eu tive que fazer eram leituras que eu também queria fazer. Mas também não li outra coisa senão essas com que já tinha me comprometido. (Aham. Quem disse que eu terminei?) Esse mês eu entrei no Círculo do Livro, um clube de leitura online, (Ou melhor, um clube online de leitura), e nesse mês o livro escolhido era Persuasão.

Persuasão tem um começo chato e eu confesso que demorei um pouco pra entender quem era a personagem principal daquela história. Diferente de Emma e Elizabeth, Anne é uma pessoa fraca, apagada, que ficou pra titia por não querer impor sua vontade. Anne é inteligente, tem bom senso, tem cultura, mas não tem atitude.

Assim como em outras obras de Jane Austen, Persuasão fica bom a partir da segunda parte. É quando o mocinho aparece mais, e quando a Mary, irmã mais nova da protagonista, aparece menos. Por falar em Mary, ela conquistou o trono de personagem mais chata do (meu) universo literário. Apesar dessa impressão, a trama não tem personagens tão marcantes, ou mesmo tão presentes como em Emma e Orgulho e Preconceito.

O interessante na obra é o trabalho da autora com o tempo. Toda história acontece por causa de um pedido de casamento recusado oito anos antes. Os sentimentos dos personagens a respeito do passado, do presente e da relação entre os dois é muito bem colocado, torna toda a história muito crível, muito real. Oito anos depois, eles estão mais maduros, mais conscientes, porém não menos machucados com o que aconteceu no passado. Acompanhar o desenvolvimento da mágoa para a redescoberta do amor de Anne Elliot e Capitain Wentworth, na segunda parte do livro, é emocionante. Só por isso, leva três estrelas.

Extras

O exemplar que eu li era de uma coletânea com todas as obras de Jane Austen compiladas num só livro, em inglês, edição da Oxford University Press. É uma edição bastante antiga, com aquelas páginas de jornal bem amareladas, letras pequenininhas, folhas finas que quase sempre grudavam umas nas outras. Peguei emprestado na Biblioteca de Humanas, Educação e Artes da UFPR - que agora está fechada por causa da greve dos servidores.

No mesmo dia da reunião do Círculo do Livro, eu vi a adaptação em filme feita em 2007, que está disponível inteirinha e legendada no Youtube. Aliás, não só essa obra, mas todas as adaptações dos livros de Jane Austen feitos na mesma época (pela BBC, eu acho). Essa conta com o lindo do Rupert Penry-Jones como Capitão Wentworth, e só por isso vale assistir #piriguetagem (Relevem o fato de que eu só o vi nesse filme, tá?)

Houve outras três adaptações em filme (1995) e minissérie (1971 e 1960).  Helen Baker escreveu uma continuação chamada Connivance, em que a Mrs. Clay fica se insinuando pro Sir Elliot e pro Mr Elliot (o barão pai da Anne e o primo herdeiro do título).

Persuasão foi o último livro completo escrito por Jane Austen, quando ela já estava doente. Talvez por isso seja mais curto e menos elaborado que os outros. A obra é póstuma, publicada em 1918, o ano seguinte ao da morte de Austen.

Todas as obras de Jane Austen em inglês estão em domínio público. Em português, você terá que comprar o livro ou procurar em uma biblioteca. Entre as edições disponíveis hoje, as melhores são da Zahar (capa dura), Landmark (capa dura e bilíngue), Landmark (bilingue, capa flexível), e as não tão boas, em ordem decrescente, L & PM (edição de bolso), Bestbolso (edição de... bolso) e Martin Claret (não compre se puder evitar, eu sei que você pode).

PS: A Travessa não me paga nada, mas depois de fazer cotação de preços para as minhas futuras aquisições (uma listinha que já tem mais de quatrocentos títulos), e levando em conta o frete grátis para o estado do Rio e as cidades de São Paulo, BH, Vitória e ♥ Curitiba ♥, recomendo como dica de amiga ;)

Persuasion (Jane Austen)

sábado, 26 de maio de 2012

O Felipe tem razão. Minha biblioteca é muito séria. (Seria muita gabolice eu dizer que sou culta, né? Mas séria pode). Eu tenho, aproximadamente, uns sessenta livros. Quase a metade são livros de Direito. Quase a outra metade é literatura estrangeira. No meio temos alguns livros religiosos, um livro de moda, alguns sobre linguística. Até onde me lembro, só tem um de literatura brasileira. E, em toda a minha biblioteca, apenas um chick-lit.

Estava eu em um dia chato, depois de aulas chatas, almoço no restaurante universitário com cardápio chato, prestes a ir pro estágio, precisando de uma leitura leve, pra não abusar da dor de cabeça que aparece nos dias chatos, mas, ao mesmo tempo, capaz de prender a atenção; alguma coisa divertida. Topei com esse livro que falava de um assassino muito desastrado. Um assassino profissional que esteve prestes a entrar pra história milhares de vezes, mas não conseguiu porque era estabanado. Tem tudo pra ser hilário, né?

Infelizmente, a impressão que eu tive foi que ele errou a dose em tudo. Na aventura do assassino, no humor do desastrado, na apresentação de fatos históricos. O modo como ele aparecia em todos os lugares, envolvido em tudo o que aconteceu de importante naquela data e lugar, vai ficando chato e forçado, assim como os desastres que acontecem com ele. Como tudo dá errado, não há surpresa. Até a ironia parece exagerada. Enfim, um enjoo.

Poderia ser ótimo, mas forçou a barra. Sabe aquelas comédias que ficam dizendo 'ria de mim, eu sou engraçado, olha que situação ridícula de engraçada!'? Enfim, quem tenta ser engraçado fica ridículo, não engraçado. Mas como tem quem goste do como é mesmo o nome daquele do youtube? Felipe Neto, o livro deve ter encontrado seu público. Mas, repito, muito aquém do humor encontrado no primeiro romance do autor. Esperando algo do nível, me decepcionei.

A história é sobre um sujeito que nasceu com um indicador a mais em cada mão e que, por isso, se acha destinado a ser assassino profissional. Filho de um anarquista, o rapaz é mais doido que o pai e vai para uma escola de assassinos onde aprende tudo sobre armas, venenos, bombas, enfim, toda espécie de engenharia mortífera. Sai dali destinado a matar grandes chefes de Estado totalitaristas e livrar os povos da opressão. Mas ele nunca consegue. Por vezes, o desacerto dele é acerto de outro, e o cidadão acaba morrendo de qualquer jeito.

O Jô repete aquela mistura de fatos verídicos com história fictícia. Começa pela morte de Francisco Ferdinando, passa pela morte de Jean Jaurès, a pandemia da gripe espanhola no Brasil, a máfia de Al Capone, o atentado contra Roosevelt, a Intentona Comunista, o Levante Integralista, até a morte de Getúlio, entre outros.

Extras

O exemplar que eu li veio da Biblioteca de Humanas, Educação e Artes da UFPR. (Aviso de utilidade pública: a biblioteca está fechando às 20h durante a greve. É, estamos em greve.) É a segunda edição, de 2000, capa azul. Pra idade que tem, está bem enxuto ;) O livro é o segundo romance de Jô Soares, publicado pela Companhia das Letras, em quase meio quilo de papel off-white de boa qualidade.

O esquema da diagramação é semelhante ao de O Xangô de Baker Street. Marcando as seções dentro dos capítulos temos desenhozinhos. O padrão é de bombas acesas, mas existem algumas partes em que elas combinam com o texto, com o desenho do trem quando ele estava no trem, do submarino quando estava no submarino, do barco quando... enfim, vocês já entenderam.

Eu não gostei do livro, mas pode ter sido pura implicância, ou vai ver que eu não estava mesmo com ares pra esse tipo de literatura. O livro tem bom conceito no Skoob. Pra quem quiser outra opinião, temos resenhas positivas do Vinicius Mahier (Recanto das Letras), outra de Daniel (Jazz e Rock).

Desafio Literário: O Homem que Matou Getúlio Vargas (Jô Soares)

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Fantástico. Divertido. Profundo. Engraçado. Emocionante. Belo. Cativante. Ri. Chorei. Senti.
Agora quero ver tudo isso em um filme!
As palavras clichezentas acima foram escritas a lápis na última página do livro tão logo terminei a leitura. Eu comecei com todos os preconceitos possíveis, tudo porque assisti P.S. Eu te amo em uma festa do pijama quando estava no terceiro ano do Ensino Médio e unanimemente afirmamos que poderíamos ter feito coisa melhor, como empapelar a casa de alguém ou brincar de verdade ou consequência, ou brincar de verdade ou consequência e, em razão disso, empapelar a casa de alguém. Ah, sim, Se você me visse agora é da mesma autora com cara de modelo francesa: Cecelia Ahern. (Sou a única que fala Cecélia pra não esquecer que são dois Es?)

A história é sobre Elizabeth, seu sobrinho Luke e o amigo imaginário invisível deles, Ivan. Essa é uma daquelas histórias em que já se sabe mais ou menos onde vamos chegar, só não se sabe como. Bem, Cecelia escreve romances e este É um romance entre Elizabeth e Ivan. Mas como?

Elizabeth é uma chata. Uma chata quadrada. Um cubículo. Uma adulta de verdade. Não há nenhum espaço em sua vida para subjetividades, imprevistos, novidades, surpresas, ou qualquer coisa feliz dessa vida. Elizabeth tem uma vida bege com superfícies impecavelmente limpas, mas armários completamente bagunçados por dentro, trancados a chave porque ela sabe que não conseguiria dar a volta por cima se as coisas fugissem completamente ao seu controle novamente. Ela não corre riscos.

Coisa-linda-que-
vontade-de-apertar!
Ivan... bom, quantos anos ele tem? Na minha cabeça, o Ivan é a cara daquele mocinho de De Repente 30 do Mark Ruffalo (se bem que eu acho que o Ivan tem olhos azuis.. como se Hollywood ligasse para as características físicas dos personagens, né?). Ele é fofo, engraçado, mistura a sinceridade espontânea de uma criança com a sabedoria de quem já viveu muito. Ele é a cor que estava faltando na vida de Elizabeth. E a cor é azul como o mar azul como no coração uma doce... Ivan é um amigo invisível profissional cuja missão é ensinar Elizabeth a viver e, de repente, aprender alguma coisa sobre a vida.

Além deles, temos Saoirse (tive que colar do livro pra escrever direito - a pronúncia é algo como 'sersha'), a irmã completamente maluca de Elizabeth, mãe do Luke, uma criança fofa, que é quem primeiro conhece Ivan. Luke é cuidado pela Elizabeth que, por defeito na parte imaginativa do cérebro, é incapaz de compreender o que é uma criança. Ainda, temos a sócia maluquete de Elizabeth, Poppy; Benjamin, o cliente que não toma banho; Joe, dono da única cafeteria de Baile na gCroite (é o nome do lugar. Esses irlandeses...), e os amigos de Ivan: Opal, Calendula, Bobby, Tommy, Olivia.

É a típica comédia romântica, com personagens muito bem construídos, com vida própria, com uma diferença básica de todas as comédias românticas do mundo: você não sabe como vai acabar. Quer dizer, dá pra ser feliz pra sempre com um amor invisível? Por que não? Essa é a grande descoberta da história. E não sou eu quem vai estragar isso.

Extras

O exemplar que eu li é meu mesmo. Ganhei da Ju-Fina-Flor no amigo secreto das Sisterchicks. Aliás, ô menina que sabe dar presente! Ganhei dois livros bem diferentes, mas que são, os dois, a minha cara. Amei!

No Brasil ele está no catálogo da Rocco (que, pelo preço dos livros, poderia ter um site melhorzinho, né?) A capa é bonita, daquelas que fazem muito sentido pra quem já leu e que deixam quem não leu cheio de perguntas. Infelizmente a capa descolou. Logo depois de ganhar o livro no Rio, viajei pra casa do meu namorado. Aí emprestei o livro e a pessoa resolveu usar as orelhas da capa como se fossem marcadores. Arrebentou com a capa e eu nem pude falar nada. Sabe aquela pessoa com quem a gente não deve se meter? Aquela, que começa com so e termina com ra? Pois é :/

Um minuto de silêncio, por favor.
Dá uma decepção também porque os livros da Rocco são caros e, se um livro é caro, a gente não espera tamanha fragilidade. Falando em qualidade, a tradução é quase ótima. Tirando uma 'a estrada sequer tinha nome, o que ela achava procedente' e um 'she knew better than' ao pé da letra, mais um ou dois erros de digitação. Apesar do papel ser branco, o estilo e o tamanho da fonte são agradáveis e os espaços são bem confortáveis para a leitura.

Foi confirmada a adaptação do enredo para o cinema, com Hugh Jackman no papel de Ivan. Por falar em adaptação, o título original é If you could see me now, traduzido literalmente na versão brasileira, mas nos Estados Unidos o nome é A Silver Lining. Oi? Pois é.

O livro pode ser comprado nas principais livrarias (menos na Cultura e na Fnac, pelo menos no site já esgotou) como Curitiba, Travessa, Saraiva, Submarino.Mais informações no site da Cecelia Ahern, na Wikipedia (em inglês) e no Skoob. Ah, claro, tem as citações no Tumblr. Divirtam-se e depois me contem ;)

Se você me visse agora (Cecelia Aherns)

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Nicole é uma garota com conteúdo. Ela é inteligente, tem assunto, gosta de ler, sabe como lidar com as palavras, mas... transforma a própria vida num dramalhão mexicano. Eu tentava me lembrar de quando tinha a idade dela e, claro, as coisas parecem muito maiores do que realmente são no início da adolescência. Mas não é pra tanto, mocinha! Até as coisas boas que acontecem com a Nicole são transformadas em tragédia quando chegam ao seu diário.

Adônis finge que é um menino rebelde. Se apresenta como o cara que não gosta de ninguém na escola porque é superior aos demais. E gosta de rock. No começo tudo o que ele faz é criticar o mau gosto alheio, comparando à sua grande capacidade mental e sensibilidade musical. Depois ele diz que não gosta de ler, conhece um cara famoso, faz amigos, monta uma banda, ele próprio fica famoso e se apaixona. E mostra como é incrivelmente burro. Burro! Burro! Seu burro! (Pronto, passou).

Apesar disso, o livro não é ruim. Não é ótimo (se a Nicole pegasse leve com o drama), mas também não é ruim (a burrice do Adônis é necessária, ou não haveria história). E não, ele não é burro-burro, os relatos históricos dele são interessantes e ele sabe escrever. Mas não enxerga o que está acontecendo na frente dele. Coisa de homem?

A história é cheia de referências da cultura pop (as que eu entendi eram quase todas envolvendo o Diário da Princesa - aliás, em matéria de drama, Nicole ganha da Mia com folga), o enredo, apesar do dramalhão, é leve, adolescente. Me incomodou um pouco a mudança drástica dos personagens do modo como eles foram apresentados no começo (tanto os 'autores' Nicole e Adônis como as pessoas a quem eles descreviam) e o seu comportamento no futuro. Muito destoante. A irmã da Nicole é o exemplo mais gritante. 

Ah, claro, como um romance adolescente não podem faltar umas pitadas de nonsense, como o final macarrônico e o fato de todo mundo se dar bem demaaaais nessa história. Aquelas coisas incríveis que acontecem nos filmes da Sabrina e de High School Musical, sabe? Acho que a Esther precisa continuar escrevendo, porque só assim ela vai chegar lá. Esse primeiro livro mostrou que ela tem potencial, mas ainda precisa escrever mais, mais, mais, mais. Dez mil horas, é o que dizem.

O exemplar foi emprestado pelo Felipe, que logo recebeu aquela pergunta que eu faço pra todo mundo que me empresta um livro: pode rabiscar? Quero dizer, não exatamente assim, que é pra pessoa não morrer do coração. A pergunta é "posso fazer anotações a lápis, bem de leve pra não marcar o papel?", bem cheia de dedos. Nos meus eu rabisco mesmo. A lápis, mas com menos discrição. 

Primeiro, porque eu vou marcando os erros de edição. Tradução mal feita, quando é o caso, ou palavra escrita errado, ou uma frase que não deu pra entender. Mas quase sempre é sobre a história mesmo. Eu marco partes engraçadas/tristes/profundas. E escrevo coisas como "tomar Coca Cola É viver perigosamente!" "Ah, vá! Ela acredita mesmo que inventou essa frase?" "Sua rídícula u.u" "BURRO!". Porque eu nunca lembro de colocar essas coisas no histórico do Skoob. Tem que ser na hora. E ler na frente do computador com o Skoob aberto cansa - e no ônibus é impossível (aham, eu escrevo no livro quando leio no ônibus. Em pé também).  Descobri que rabiscar o livro é viciante. Não que eu rabisque o livro de todo mundo. Eu sempre peço antes. E nunca rabisco os da biblioteca.

Ah, a capa do livro me intrigou por uma coisa: a Nicole não tem olhos castanhos? Por que na capa os olhos são verdes? E por que ela usa óculos? Eu tinha achado a capa suuuuper legal, tem orelhas, o acabamento é ótimo... até ver que não tem nada a ver com o livro. Porque, além de todo, a menina está sorrindo (#risadamaléfica). Os erros de edição foram poucos. Muito poucos se considerar que a editora não é daquelas grandes (eu não conhecia esse selo "Desfecho Romances").

O livro foi avaliado de duas até cinco estrelas no Skoob, então acho que depende mesmo de quem lê. O Felipe contou como foi o lançamento do livro e depois escreveu uma resenha. A Elisa, irmã da Esther, também escreveu uma resenha, e eu não queria estar no lugar dela. Ainda bem que eu acho que nenhum dos meus... ahhh, deixa pra lá. Pra que adiantar o sofrimento, não é mesmo? Quem quiser comprar (é um ótimo presente pra aquele aniversário de 15 anos da amiga da sua irmã) pode tentar na Livraria da Travessa ou direto com a Editora Multifoco.

Uma Garota com Conteúdo (Esther Braga)