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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

É, faz tempo que eu li - foi em julho mesmo, a resenha é que atrasou um tiquinho -, mas as impressões que esse livro que causou um alvoroço nos blogs literários Brasil afora não desapareceram. Parte desse movimento todo deve ter sido porque o autor é bacana (me senti tão antiga falando bacana...).Outra parte por causa dessa onda ufanista que fez virar moda elogiar tudo o que é nacional, só pelo fato de ser nacional - aquele balaio de gatos e cachorros que descredibiliza completamente quem não consegue fazer uma crítica sincera. Mais uma parte por puxa saquismo e vontade de ganhar livros de graça pra depois fazer um elogio que diz nada com nada.

Primeiro, o elogio: o autor escreve bem. Sério, eu gostei. Porque se eu não tivesse gostado, eu certamente me lembraria #souchata. Também não me lembro de nenhum erro grosseiro de edição, nenhuma narração confusa.  Alguns momentos carregam algum suspense, mas sem deixar o leitor perdido sobre o que aconteceu, acontece ou acontecerá. Essa foi uma das coisas que me prendeu ao livro. Toda história fica melhor quando é bem contada. Mas a melhor história do mundo pode ficar insuportável quando a narrativa não funciona.

Chegamos à história e ao meu julgamento: eu não gostei do livro. Apesar de ser bem escrito e de não ter implicado com nada de mais. Eu impliquei com a história. Nada mais, nada menos. Fica a pergunta ao autor: ele sabia do que estava falando quando resolveu escrever sobre irmãos adotivos?

A trama, que não é nenhum spoiler porque é a premissa do livro, se desenvolve na história de amor de dois irmãos adotivos. História de amor. Irmãos. Adotivos. Na primeira vez que eu ouvi falar disso, fiquei matutando sobre as consequências jurídicas dessa união - eles não podem casar... mas será que podem constituir uma união estável?, mas quando eu li o livro a coisa mudou de figura.

Até então, eu não tinha me imaginado no lugar dos personagens, mas ler um livro é se transportar pra dentro da história. Quando eu fiz isso, não funcionou. A história não bate. Não rola. Não combina. Sabe por quê? Eu tenho um irmão adotivo. E nós nos tornamos irmãos quando adolescentes. Nem crescemos juntos como Leo e Carol. Eu não consigo me apaixonar pelo Dan simplesmente porque ele É meu irmão. Sabe, pra mim, dizer diferente é como se a adoção não fosse adoção de verdade. Como se duas pessoas não pudessem se fazer irmãos. Acontece que nós somos.

Já ouviram aquela expressão 'como beijar um irmão'? Tem naquele filme chato PS: I Love You. Beijar um irmão não é só nojento. Não tem graça. Nenhuma. E é nojento. Se você tem um irmão do sexo oposto (ou do mesmo, se você não tem essas conveniências...), imagine-se beijando-o(a). Na boca. Beijo de novela, mesmo. Uuuugh! Desculpa, Enderson. Não rola. Porque eu não consigo diferenciar meu irmão biológico do meu irmão adotivo. O sentimento é exatamente o mesmo. Eu sou apaixonada pelos dois! Mas o Eros é só  com o Haralan ;)

PS: Meu irmão - o mais velho, adotivo - vai casar! Que emoção! :)
PPS: Esqueci de dizer que a edição é ótima! A capa é linda e a abertura dos capítulos também. Amei!
~0~
Sobre o autor: Blog | Twitter | Skoob
Sobre o livro: Skoob | Twitter
Onde comprar: Saraiva | Curitiba | Martins Fontes

Desafio literário (de julho): Todas as estrelas do céu - Enderson Rafael

sábado, 24 de setembro de 2011

Já falei que tenho dificuldade com coisas novas? É tão confortável ficar com o antigo, o conhecido... Isso vindo da pessoa que foi pro nordeste colocar no prato só as coisas com nome estranho e desconhecido pra ver se era bom. Mas com livros e música... Bom, é que comida diferente que a gente não gosta, é só cuspir. Mas o que fazer se você não gostar do livro? Ou pior, se você não gostar do CD novo daquela banda que você gosta demais? Morro de dó!

Pensar que alguém teve o maior trabalho pra escrever um livro, editar, distribuir... mas não dá pra agradar sempre. Pelas resenhas que tenho lido, eu sou exceção na história, então se você ainda não leu, acho melhor procurar o livro pra tirar suas próprias conclusões, tá? Como toda opinião é válida e a crítica sincera vale mais que o elogio falso, vou deixar registrado aqui porque eu não gostei do livro.

1) Joana. A personagem principal não me cativou. Poucas coisas me incomodam mais em uma pessoa do que falta de amor próprio. Dá vontade de bater a cabeça dela na parede. Joana é aquela pessoa orgulhosa e sem um pingo de amor próprio. Depois que foi largada pelo namorado, ela simplesmente deixou de viver. Eu não entendo como alguém pode colocar sua vida em função de outra pessoa. E se essa pessoa morrer, você vai morrer também? Até acredito que existam pessoas loucas assim, mas eu evito conviver com essas. Tenho medo que seja contagioso.

2) Fernando. Está certo que não foi a primeira vez que eu não morri de amores pela protagonista, só que geralmente quando a mocinha é insuportável, o mocinho tem algum carisma. Mesmo que ele seja um chato, esnobe, mal-educado (Mr. Darcy?), tem que existir alguma coisa que cativa. Até o momento em que se descobre porque Fernando deixou Joana, ele só mostra seu lado cafajeste. Nem mesmo o motivo que o fez largar tudo consegue justificar as atitudes dele. Até quando ele parece estar pensando no bem dela, ele é egoísta.

3) A História. Não é de todo ruim. Na verdade, o que incomoda é que ela é muito enrolada. Algumas vezes tem detalhes demais, outras vezes acontece tudo muito rápido. Na primeira metade do livro não há sequer uma pista do que pode ter acontecido. Na verdade, eu fiquei a maior parte do tempo achando que o Fernando tinha ido embora porque descobriu que a Joana é doida. Até o momento em que ele também mostrou algumas atitudes estranhas, e daí pra descobrir o motivo foi um pulo.

4) Diagramação. O livro não foi produzido por uma editora. Eu admiro as publicações independentes. Não é qualquer um que segura sozinho editar, imprimir, distribuir... e bancar sozinho os custos de tudo isso. Mas alguém tem que dizer que a edição não ficou boa. É claro, existem publicações independentes muito, mas muito piores. Além do mais, isso tudo custa caro, mas eu tive sérias dificuldades pra ler porque as linhas ficam muito juntas #soucega. Além disso, os parágrafos são muito grandes, o que dificulta ainda mais as coisas.

Se eu não gostei do livro, por que simplesmente não abandonei? Porque eu não gosto de parar uma leitura no meio; porque eu queria saber porque Fernando saiu de casa; porque eu mantive sempre a esperança de que tivesse algo muito bom na próxima página que mudasse minha opinião sobre o livro.

Ah, a Cintia e o Felipe gostaram do livro.

Desafio Literário (de julho): Perseguição Digital - Loraine Pivatto

sexta-feira, 1 de julho de 2011

É, a ideia era ler também alguma peça brasileira, mas não deu. Foi difícil escolher outras peças que não fossem dele, mas não deu pra ler outra coisa. Esse mês foi de Shakespeare. Li três comédias em um volume único, mas uma delas foi releitura (não conta para o DL).

Foto: divulgação do filme The Tempest
A Tempestade
Um duque italiano levou um golpe do próprio irmão para assumir o ducado, sendo enviado para uma ilha deserta - e distante - e dado como morto. O ex-duque, por sua vez, passa a perna na feiticeira da ilha, adquire seus poderes e torna seu escravo o monstrengo Calibã, filho da feiticeira morta. Quando descobre que o navio da Corte Real está por perto, faz com que uma tempestade leve todos para a ilha e arma sua vingança.
No início da história fica meio difícil de entender do que eles estão falando - como quando a gente vai passando pelos canais e cai no meio de um filme. Aí, em poucas páginas, Próspero (o ex-duque) conta todo o seu plano, ou seja, toda a história. O enredo não é sobre o que acontece, é sobre como acontece, porque enquanto realiza seu plano de vingança e reconquista, Próspero resolve se divertir com os náufragos.
O destaque vai para os coadjuvantes. A historinha paralela entre Estéfano, Trínculo e Calibã, fazendo planos para dominar a ilha. E, claro, o vento, que também é um personagem, chamado Ariel.


Foto: Titânia e Oberon
Sonho de uma Noite de Verão
Essa peça eu já conhecia. Li e quase atuei/dirigi quando estava na oitava série. Depois nós mudamos de ideia e eu fui a Rosa em O Pagador de Promessas (Rá! Essa ninguém sabia, né?).
A história na verdade conta várias histórias, todas muito fofas e divertidas. Tem o casamento de Teseu e Hipólita, pano de fundo para toda a história. Tem o quadrado amoroso de Hérmia, que ama Lisandro, mas que está prometida para Demétrio, por quem sua amiga, Helena, é apaixonada. Os quatro vão parar no meio de uma floresta quando Lisandro e Hérmia resolvem fugir. Nesse momento, Puck, a mando de Oberon, rei dos elfos, apronta com os quatro, causando a maior confusão, e prega também uma peça em Titânia, a rainha das fadas, fazendo-a se apaixonar por um homem com cabeça de asno. O coitado só estava ensaiando uma peça para apresentar no casamento do duque!

Mas, entre todos, o que eu queria mesmo ler era...

Foto: Divulgação.
O Mercador de Veneza
Porque o julgamento de Shylock é épico! Depois de ver tantos comentários jurídicos sobre a peça eu tinha que ler, tinha mesmo. Só não li antes porque não tinha encontrado em português na biblioteca (não tenho paciência pra ler Shakespeare em inglês arcaico, não, você tem?). Mas bem, poderia fazer um milhão de outros comentários jurídicos, mas vou falar só da história.
O caso é o seguinte: Bassânio quer se casar com Pórcia, mas pra isso precisa de um dinheiro. Pede o dinheiro emprestado a Shylock, tendo como fiador seu amigo Antonio. O contrato diz que, caso não paguem a dívida, Shylock terá direito a um quilo de carne do peito de Bassânio, na região do coração. Bassânio viaja para fazer a corte a Pórcia e acaba ficando seu noivo. Logo depois, descobre que os navios de Antonio naufragaram e que, sabendo disso, Shylock foi cobrar a dívida. Retorna a Veneza para o tribunal e consegue livrar seu amigo graças à inteligência da esposa.
Existem muitos destaques nessa história, mas acho que o mais legal é que a mocinha não é só uma mocinha... Em geral, as mulheres e Shakespeare são tolas apaixonadas. Pórcia se destaca não só por ser bela e rica, sua esperteza faz a diferença, mudando os rumos da história. A peça mais legal que já li até hoje!

Peças de teatro são um pouco difíceis de se ler quando não se está acostumado. Às vezes fica um pouco confuso, algumas coisas não estão escritas (não existe 'disse Fulana, sorrindo enquanto pensava em...'), mas esse exercício de imaginação se torna muito interessante depois de pegar o jeito!

Desafio Literário: Shakespeare

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Eu sempre fico com pena de falar mal de um livro. Ah, não falar mal... Viu? Primeiro sintoma, querer usar eufemismos. Eu não gostei do livro, fato. Fico aqui tentando entender o porquê, mas não sei ao certo. Um livro premiado, sobre a cobertura jornalística de um fato histórico importante e recente, escrito por um jornalista super conceituado... o que faltou? Não, não faltou nada. Só que eu esperava outra coisa.
É bem diferente do outro livro do DL esse mês. Não é uma história que foca em alguém, apesar de ser uma espécie de diário de viagem. O livro narra fatos, acontecimentos, encontros. Alguma aventura do jornalista também, mas nem isso me deu adrenalina suficiente. Terminei de ler por teimosia, porque vontade não tinha, não.
Ah, claro... pra quem quer saber sobre a guerra que dividiu a Iugoslávia SETE países, é bem legal. Sob essa perspectiva eu gostei, porque é um jeito interessante de aprender sobre algum fato histórico. 'Ouvir' de alguém que esteve lá, que conversou com pessoas de lá, bem melhor do que simplesmente pesquisar na Wikipédia.
Agora a dúvida que eu tenho é: Livro-reportagem é A Batalha de Sarajevo, A Sangue Frio, ou os dois? Porque são tão diferentes...
Se mesmo assim você se interessou:
Comprar: Estante Virtual (esgotado nas livrarias! É, parece que sou do contra mesmo =P)

Desafio Literário: A Batalha de Sarajevo - Leão Serva

sexta-feira, 20 de maio de 2011

A primeira coisa que eu faço ao chegar no escritório é tirar os livros da bolsa (e a última é colocar os livros na bolsa. Mas por que você não deixa os livros lá? Porque são meus, eu os amo e preciso deles perto de mim! #louca). Aí com os livros todos na minha mesa sempre tem alguém pra comentar minhas opções literárias ou pra perguntar se o livro é bom.

E aí, esse livro é bom? 
É ótimo. 
Em que parte você está? 
Acabei de terminar o prefácio.

Vocês sabem que eu não me empolgo à toa. Estou tentando enganar a quem? Todo mundo sabe que eu me empolgo à toa. Mas dessa vez não desperdicei elogios. O autor, apesar de nunca aparecer na narrativa, é a personagem principal. Ele viu a notícia sobre o assassinato da família Clutter e pensou que isso daria um bom livro. Fez as malas e partiu para o Kansas. Resultado: "a verdade é que eu escrevi uma obra-prima, e vocês não". Baixinho invocado, né?

Um livro que fala sobre homicídio, pena de morte, criminologia é um prato cheio pra falar um monte de coisas jurídicas, mas vou tentar me conter. É uma história real, claro, sobre os Clutter e seus dois assassinos, desde o dia do fato típico crime até a execução dos condenados. Sim, é um livro onde você já sabe toda a história, porque está escrito na capa. A pergunta que ficou na minha cabeça durante todo o livro foi 'Por quê?'

Enquanto eu tentava descobrir porque eles executaram a sangue frio quatro pessoas que nem conheciam, acabei conhecendo Perry e Dick, duas personalidades perturbadoras. Perturbadoras pra mim porque, ao conhecer a história da vida deles, percebi que já cruzei com muitos semelhantes a esses. Eu não consigo olhar pra alguém que tenha cometido um crime e não pensar que essa pessoa precisa de ajuda. (Aimeudeus, cá estou eu juridicando a resenha!)

Vamos falar da técnica. Truman Capote disse que inaugurou o romance sem ficção. Fato: foi a história baseada em fatos reais mais real e mais romanceada que eu já li. Não é a história de um fato. É a história de pessoas. De quase todas as pessoas envolvidas. E quando eu pensei que daria um excelente filme, descobri que já existem dois. (Dizem que os filmes são bem cult, mas o @felipe_fgnds diz que eu sou isso, né?)

Desafio Literário: A Sangue Frio - Truman Capote

sábado, 14 de maio de 2011

Essa pessoa da capa não dá
um medinho?
O tema desse mês é livro-reportagem. E não, não tem nada a ver com a resenha que eu estou postando. Isso porque essa resenha é do mês anterior. A  intenção era mandar a resenha pro DL e depois postar, mas semanas se passaram e a resenha não nasceu.

 O meu desempenho de abril no Desafio Literário foi de imenso fracasso. A ideia era fazer uma resenha só, comparando as visões futurísticas de Aldous Huxley e George Orwell (uma ideia tão revolucionária que, antes que eu a executasse, ela chegou prontinha no Reader). Mas eu não li 1984 - todos os exemplares da biblioteca estavam emprestados. Ô, livrinho caro, né, gente?

As primeiras páginas do Admirável Mundo Novo foram fortes pra mim. Fiquei com nojo da condição tão desumana a que tantos humanos se submetiam na ficção de Huxley. A criação de seres humanos como máquinas fabricadas, produzidas em série, artificialmente criadas e condicionadas para cultuar os valores bons para a manutenção da comunidade. Eu ficava o tempo todo pensando no que aconteceria se uma dessas máquinas quase-humanas quebrasse o padrão. Aí é possível comparar com a manipulação de massa do nosso mundo, mas, bem... Acho que o caso é bem mais grave.

Pessoas que não sentem, não pensam, não refletem, não imaginam. O mundo da mediocridade. Todos têm a vida perfeita. Não envelhecem, não engordam, não adoecem, estão sempre satisfeitos. Se não estão, tomam um grama de soma e se sentem bem. Não existem relacionamentos. A palavra 'pai' é piada pronta. 'Mãe' é palavrão. 'Filho' é uma vergonha e 'cada um pertence a todos'. Sim, a promiscuidade faz parte das relações sociais (essa é a palavra exata usada no livro). Uma sociedade feita de nada. Estamos caminhando para isso? Estamos. Chegaremos lá? Duvido.

É paradoxal demais eu ter achado a história horrível e mesmo assim achar que todo mundo tem que ler? Porque a história em si é nojenta, mas é muito bem contada. O livro é bom e a história é péssima. Pode ser? Alguém já se sentiu assim com um livro? Estranho, eu sei...

Desafio Literário: Admirável Mundo Novo - Aldous Huxley

segunda-feira, 28 de março de 2011

This is Spaaaaaarta!
(Eu tinha que falar isso em algum lugar)
Eu procurava uma coisa que eu não sabia o que era. Eu sabia que precisava disso, mas não sabia como encontrar. Não sabia como reconhecê-la quando a encontrasse. Não, não era um vazio interior... é só que eu não sabia o que era um 'romance épico', a categoria de março do Desafio Literário. O subtítulo "um romance épico da batalha das Termópilas" facilitou as coisas. Não teve erro. Pra falar a verdade, foi  um dos maiores acertos do ano da vida! 

As Crônicas de Nárnia, Os Meninos da Rua Paulo, Monteiro Lobato,  Virgulino Lampião, Os Três Mosqueteiros, e agora isso! Estou achando a minha lista a melhor de todas porque eu não comparei com nenhuma. A cada escolha tenho me surpreendido, encontrando muito mais do que esperava.

Desse livro, francamente, não esperava nada. Só escolhi por causa do 'épico', mesmo. Não pesquisei nada sobre ele, nem sobre o autor. Não sabia sequer a capa ou o tamanho. (Escolhi pelo portal da biblioteca da UFPR). Quanto mais o que raios de 'Batalha das Termópilas' era essa.

Ah, você lembra por causa do filme 300? É importante dizer que, apesar de retratar a mesma batalha, o filme foi baseado na obra de Frank Miller, uma história em quadrinhos (que por sua vez é baseada no filme Os 300 de Esparta). Não é por ser HQ, mas não chega nem perto em intensidade, profundidade, densidade, realidade do romance de Pressfield (que tem alguns outros do gênero, no Brasil só esse e As Virtudes da Guerra). 

A história é narrada por um escudeiro, Fato que vai mudar a sua vida: os trezentos de Esparta não eram trezentos. Cada um tinha pelo menos dois escudeiros, que eram escravos servos, o único sobrevivente quase moribundo da batalha. Ele recebe os cuidados do cirurgião real para que um historiador persa registre tudo o que ele conseguir dizer sobre os espartanos, sua estratégia, seu treinamento, seus homens, a mando do próprio Xerxes.

A ênfase não é na luta em si, mas nos personagens. São todos muito profundos, alguns realmente densos. Todos, de uma forma ou de outra, admiráveis. Nada mais justo, já que são eles que fazem a luta. São os personagens que tornam as coisas interessantes. É legal ver como todos os personagens retratados são importantes. Não são Leônidas e '299 homens'. Esses homens têm nome, têm família, têm personalidade e particularidades. Dienekes, Alexandros, Polynikes, Xeones, e não só os guerreiros. As mulheres deles,  Arete, Diomache; Xerxes e seus súditos. Todos personagens que merecem ser conhecidos. Quando eu penso em qualquer um deles, sinto profunda admiração. (Vão me dizer que sou a única que nutre sentimentos por personagens de livros? Se for, posso me repetir por ser baseada em fatos reais?)

Pra finalizar, vou recomendar não só o livro, mas o autor. Não li mais nenhum outro livro dele, mas não será necessário. Ele não é bom, é ótimo. O estilo é envolvente. A 'estratégia' de escolher um personagem para contar a história torna tudo muito real. Ele sabe ser convincente, e não só por isso. Ele pesquisa o que escreve, não fala besteira à toa.

As capas originais, como quase sempre, mil vezes mais bonitas.
Portões de Fogo (Gates of Fire) foi o primeiro segundo livro lançado. O primeiro foi The Legend of Bagger Vence. Depois vieram Tides of War, Last of the Amazons, The War of Art, As Virtudes da Guerra (The Virtues of War), The Afghan Campaign e Killing Rommell e The Profession, que está em pré-venda. É triste saber que um autor tão incrível, que arrebata fãs em poucas páginas oi!, seja ignorado pelas editoras brasileiras. Quando eu tiver uma editora...

Desafio Literário: Portões de Fogo - Steven Pressfield

sábado, 12 de março de 2011

A história dos três mosqueteiros, que na verdade são quatro, é na verdade a história do único dos quatro que não é mosqueteiro. O herói  de fato é D'Artagnan, um típico colérico, esquentadinho que só, que se envolve em todo tipo de confusão justamente por ser como é. Eu poderia dizer que esta é uma história de amizade, de amor, de intrigas, de aventura... O negócio é que é uma história disso tudo junto.

A Amizade Quando D'Artagnan chega a Paris para tentar a vida, Athos, Porthos e Aramis já são conhecidos como os três inseparáveis. É uma história engraçada a que junta D'Artagnan aos outros três. Os quatro juram ser leais uns aos outros, dividindo entre si tudo o que possuem: os amigos e os inimigos, os problemas, o dinheiro, as aventuras. Só não dividem os amores.

O Amor Nessa época era comum que as mulheres tivessem amantes. Aliás, me espantou como isso era tratado da forma mais natural do mundo. Como um homem moço e sem dinheiro deveria tratar de arranjar uma amante que o sustentasse, e como uma mulher casada deveria tratar de se envolver profundamente com o homem que lhe atraísse mais. Casamentos são mera formalidade, pra provocar o orgulho dos maridos que fingem que não sabem de nada. Imagina a confusão que isso traz?

As Intrigas O Rei teme o Cardeal, que persegue a Rainha porque não conseguiu tê-la por amante. A Rainha, por sua vez, tem relações com o Duque de Buckingham, mas não quer se envolver por ser Rainha. (Pega mal, sabe? Ser rainha da França, ser amante do primeiro ministro inglês...) Todas as intrigas do livro surgem dessa relação escandalosa. (Todas menos uma, na verdade, mas essa é surpresa). A grande vilã da história é a protegida do Cardeal, chamada Milady, encarregada das missões mais sujas e perigosas.

As Aventuras É em função das missões de Milady que os quatro amigos se aventuram. Ora para atrapalhar seus planos, ora para salvar a própria pele, ou mesmo para dar-lhe uma lição definitiva. A trama contém uma grande aventura que se inicia logo no início do livro, e serve de pano de fundo para toda a história. São várias aventuras, missões que lhes surgem para chegar ao sucesso final. 

Por se constituir de tantas histórias, o livro não para. Sempre há uma emoção nova, uma aventura nova. Além disso, há muitos diálogos. Amo livros cheios de diálogos. A história flui rapidamente. Apesar de ser uma edição de 1971, não tive dificuldade alguma na leitura. Pelo contrário, edição impecável, tradução excelente, notas bem colocadas. Vocês sabem como sou chata, né? Só tenho uma reclamação. Não é a edição ilustrada. Alguém quer me dar de presente?

Desafio Literário: Os Três Mosqueteiros - Alexandre Dumas

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Aos quareeeenta e sete do segundo tempo, sai o segundo gol a segunda resenha que garaaaaaante a vitória na segunda fase do Desafio. Haaaaaaaaja coração!

Não me perguntem porque eu escolhi essa biografia. Foi meio, sem lá, intuição. Sempre conheci o cangaceiro como a lenda, ouvindo todo o pessoal da família de meu pai se referindo a ele como compadre. (E não é que tem um tal de Jovi mencionado na biografia? Se era meu avô? Sei lá...) 

Achei toda a história bastante interessante. A biografia é uma pesquisa, com fundo acadêmico, baseada na tradição oral. Isso significa que em vez de ficarem confiando exclusivamente nos documentos, resolveram buscar os depoimentos de pessoas que presenciaram os fatos, ou que estiveram com pessoas que participaram e que contaram suas histórias. Ah, e a organizadora é a neta dele. (Não sabia que cangaceiros tinham filhos? Nem eu. E antes que você imagine como, eles eram criados por padres, fazendeiros, coiteiros - pessoas que davam abrigo para os cangaceiros...)

O livro conta diversas histórias das 'aventuras' do chamado Rei do Cangaço em ordem cronológica. A personagem, que, apesar de real, é também um mito, é bastante confusa, controversa. Capaz de agir com misericórdia ou crueldade, totalmente imprevisível. Ah, vale mencionar também que era um grande estrategista, sempre duas jogadas à frente das volantes - nome das tropas militares que perseguiam os cangaceiros.

Virgulino resolveu ir para o cangaço porque perdeu a paciência. O sítio de sua família, gente pobre, foi roubado por um dos empregados de um grande coronel, desses coronéis que nunca foram militares, sabe?, que era seu vizinho. Além de nunca conseguir a justiça, ainda recebia provocações do filho do coronel, que herdou tudo do pai após sua morte. Com dinheiro e influência a coisa ficou cada vez mais séria. Foram perseguidos mesmo quando tentaram esquecer a encrenca. Foi quando perdeu a paciência e resolveu que ia matar até morrer. Consegue imaginar quanto ódio deve ter para que alguém chegue a tal conclusão?

Apesar de serem os bandidos da história, muitas vezes os cangaceiros se mostraram mais corretos que as volantes. Lampião tinha muito empenho em manter o respeito às famílias, principalmente depois que passaram a levar mulheres em seu grupo, coisa que as volantes não tinham. As coitadas das famílias eram saqueadas pelos cangaceiros, às vezes nem isso, e depois violentadas pelas volantes. Já ouviu aquela história de soldados que invadem a cidade em estado de guerra e começam a abusar das mulheres no local? Pois é. Além disso tinha a tal da crueldade. Se queriam lutar contra os bandidos, não deveriam se igualar a eles, né?

A última história que eu achei interessante foi de como Maria Bonita juntou-se ao grupo. Ela estava na casa de seu pai quando conheceu Lampião. Eles conversaram e ficaram meio amigos. Ele deu uns lenços para ela bordar, pagando, é lógico. Os cangaceiros pagavam tudo o que consumiam. Mas o dinheiro vinha de saques e despojos das batalhas... Ele passou a aparecer lá muitas vezes e a família do pai dela estava sofrendo as consequências disso. Não querendo ver ninguém sofrer, ela tomou a decisão. Da próxima vez em que ele aparecesse, ela o seguiria.

A história toda parece um filme de faroeste versão Herbert Richards. Como assim você não gosta de filme de faroeste? Tem coisa mais engraçada que ver aqueles grandessíssimos filhos de umas mundanas dando tiros pra todo lado? Sério, gente, é engraçado. Assistam qualquer dia desses... Bom, além de engraçado, porque sempre acontecem umas trapalhadas, SEMPRE, também tem toda aquela coisa apreensiva de 'Será que o nosso herói via se safar dessa?' E sim, eu agora estou falando do livro, embora isso também se aplique ao bang-bang.

Fiquei feliz por conhecer um pouco mais da história de um brasileiro. Engraçado é que Lampião foi contemporâneo de Monteiro Lobato, mas parecia que eles viviam em países e épocas completamente diferentes... Ê, Brasil, né?

Desafio Literário: Compadre Virgulino Lampião

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Houve uma feliz alteração nas minhas escolhas para o Desafio Literário desse mês. Com um tema desafiador, porque não é qualquer um que se presta a ler biografias, da mesma forma que quem lê biografias não costuma ler qualquer coisa. Escolhi os novos livros entre as estantes de biografia da biblioteca. Pela capa, pelas figuras, pela edição, e, claro, pelo biografado. A biografia do Lobato logo me saltou aos olhos. Confesso: o que me fez não querer mais largar o livro (e não querer mais nenhum que não parecesse tão legal quanto esse) foram as declarações infantis sobre como imaginam o autor que preencheu a infância delas com fez com a minha.

Formou-se em Direito em uma renomada faculdade brasileira, onde acendeu sua militância e fez pulsar a veia jornalística, publicando vários artigos. Foi promotor, mas não se descobriu na área jurídica. Tentou ser fazendeiro nas terras que herdou do avô, o Visconde de Tremembé, mas acabou abrindo uma editora e fazendo carreira na literatura. Ô, seu Lobato! Não dá idéia!

Jornalista em São Paulo, foi um grande defensor de uma cultura nossa, brasileira. E não só da cultura, mas de toda a nação. Lutou tanto que ficou com raiva. Típico de Lobato: diz que não crê no Brasil e na sua gente e que quer se manter distante. Mas não consegue se afastar e persiste na luta. Por falar sempre o que quis, acabou preso duas vezes. E levou na esportiva, pra fazer passar raiva quem lhe prendeu. Só não aguentou a mordaça da censura 
"Eu nasci para escrever o que penso; sou escritor, portanto. Mas estou impossibilitado de exercer essa função. Sinto em minha boca um grande batoque enfiado... Uma rolha... Sou um homem desempregado e sem função."
Quis trazer ferro e petróleo ao Brasil. Perseguiu o sonho de Mauá pelo progresso dessa grande nação, que viveu muitos séculos fazendo papel de pobre coitado na economia mundial. Queria ganhar dinheiro na indústria para ter os livros como recreação. Acabou ganhando dinheiro com os livros para perdê-lo na indústria.

Com as crianças, fez sucesso por onde passou. Recebia muitas cartas elogiando seus livros, pedindo conselhos, perguntando se poderiam tê-lo como patrono da biblioteca da escola, e, é claro, dando muitos conselhos. Crianças são atrevidas, e Lobato queria isso delas. Admirava o fato de as crianças exporem suas opiniões sem se importar se elas são mesmo importantes.

Já no fim da vida, sofreu um AVC que lhe deixou uma sequela rara e cruel - teve agrafia. Não perdeu nada de sua consciência ou de seus movimentos, mas não reconhecia o significado dos traços das letras, nem sabia mais como traçá-las. Conseguiu fazer rápidos progressos e reaprendeu a ler. Um novo espasmo o levou de madrugada em 4 de julho de 1948. Foi velado, onde mais?, na Biblioteca Municipal, aplaudido por uma multidão de brasileiros que sempre retribuíram com cartas, convites e aclamações o amor indisfarçável que teve pelo Brasil.

Desafio Literário: Monteiro Lobato

sábado, 29 de janeiro de 2011

Não sei como foi a infância de vocês, mas a minha eu divido em duas: a garota de cidade pequena e a menina de condomínio. Teve também a época que eu morei na Bahia, mas antes dos cinco anos não conta, combinado?

A garota de cidade pequena morava em uma cidade muito, muito pequena. Tão pequena que ela chegou a estudar na cidade vizinha por um ano. Mesmo sendo uma cidade pequena, a menina era menor ainda e, apesar de andar as nove quadras (não dá pra saber exatamente quanto é isso porque a cidade é tão pequena que o Google achou insignificante mostrar as ruas) que a levavam sozinha até a escola da 1ª à 4ª série, ela não podia andar sozinha por aí pra outros lugares. Afinal, não passava de uma garotinha.

Apesar de o pai da menininha achar que meninas não deviam brincar com meninos, ele não tinha muito o que fazer, afinal, ela era a única menina da rua, e apesar de ser mais velha que todos os meninos, era criança como eles. Pra brincar eles tinham a rua toda. Lá eles brincavam de pega-pega, futebol, alerta... No jardim, gostavam de se pendurar nas árvores e disputar quem chegava mais alto, quem pegava mais ameixas, quem pulava os muros mais depressa. Quando queriam aventura, brincavam no terreno ao lado da casa da menininha. Lá o cenário era quase sempre de guerra. Ela era a enfermeira e gostava de inventar um drama quando alguém se feria. Era sempre tudo muito grave. Quando chovia eles brincavam no pátio da igreja. (Eu não contei que a menina morava nos fundos da igreja?) Lá era muito bom pra brincar de pique-esconde. Depois da chuva iam jogar pedras nas lagoas que se formavam - hoje ela sabe que eram só poças de água - e pular na água, só até as mães descobrirem, o que não era difícil, já que pulavam gritando.

A menina de condomínio não gostava de brincar com as crianças grandes, apesar de ela já ser uma criança grande. Ela achava as outras todas muito metidas e sem imaginação. Com as crianças menores ela tinha muito respeito. Afinal de contas, ela era maior, mais forte e mais inteligente. Quando não descia para o playground, acabava sendo chamada pra resolver alguma briga - meninos sempre brigam. As brincadeiras também havia cenas de guerra, só que dessa vez ela lutava. Também gostava de fazer acrobacias e se pendurar de cabeça pra baixo. E de imitar agentes secretos em missões impossíveis. Ah, e é claro, fazer concursos de quem vai mais alto no balanço.

Os meninos da Rua Paulo pareciam com essas crianças. Eles gostavam de brincar de exército e de péla no terreno onde brincavam, chamado grund. Eram cheios de princípios e valores, como crianças. Já reparou como as crianças dão importância a isso? Pelo menos no meu tempo aquele negócio de 'quem rouba sempre perde' era muito forte. Quando alguém fazia coisa errada, era censurado por todos. Ah, e a lealdade. Coisa feia pra criança é traição. Amigo é amigo até o final. Ler Os Meninos da Rua Paulo é como se sentir criança de novo. É como uma narração da sua própria infância. A história conta a luta dos meninos pelo lugar que tanto amavam - o grund. O lugar que era deles. Todos juntos, corajosos, valentes - um por todos e todos por um. Ah, o romantismo infantil... Às vezes não dá saudade de ser criança?

Agora a avaliação mais técnica. O autor é um dos meninos, embora só algumas vezes ele deixe escapar esse fato. A narrativa é muito expressiva, e eu não pude evitar as lágrimas, sorrisos e risadas. Foram tão bem merecidas que saíram antes que eu pudesse segurar. O livro tem várias notas de tradução, o que foi bom e ruim. Bom porque os nomes húngaros têm uma pronúncia diferente e eu acho legal saber como se pronuncia os nomes das pessoas antes de começar a chamar pelo nome errado. Foi ruim porque tinha notas demais. Reclamo especialmente de quando tinha uma palavra pouco comum, com uma nota indicando sinônimos. Ora, ou deixa o nome difícil ou substitui de uma vez! Acho que, como tradutora, caham, até parece! fiquei muito enjoada com esses negócios.

Não me impressiona que o livro, escrito para o público infantil, tenha ultrapassado todas as barreiras etárias, étnicas, linguísticas... Porque é um livro sobre a infância e porque a infância é universal.

Desafio Literário: Os Meninos da Rua Paulo - Ferenc Molnár